COVID-19: Teste de PCR não é baboseira

Exame feito a partir da coleta de material da mucosa de pacientes é altamente sensível e pode detectar infecções ativas pelo SARS-CoV-2.

“PCR é baboseira”. A frase, atribuída ao jogador de futebol Cristiano Ronaldo, que testou positivo para COVID-19 mesmo se sentindo bem e sem apresentar sintomas, motivou uma onda de postagens nas redes sociais questionando a confiabilidade dos testes moleculares para detecção do SARS-CoV-2. Porém, esta é a melhor ferramenta que temos para detectar a infecção pelo vírus em sua fase ativa. O microbiologista Leandro Lobo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defende a técnica: “é extremamente sensível, rápida, prática, barata e bem conhecida dos cientistas e técnicos de laboratório”.

A técnica conhecida como PCR – sigla, em inglês, para reação da polimerase em cadeia – foi desenvolvida na década de 1980 pelo cientista norte-americano Kary Mullis. Naquela época, já se sabia que a informação genética dos organismos estava armazenada em moléculas de DNA. Porém, para analisar esse material, era necessário ter grandes quantidades da molécula, impossíveis de obter a partir de pequenas amostras. Assim, o PCR surgiu para multiplicar moléculas de DNA rapidamente, de modo a gerar a grande quantidade necessária para sua análise. Pela técnica, Mullis recebeu o prêmio Nobel de Química em 1993. O cientista – a quem fake news já atribuíram afirmações de que sua técnica não era capaz de diagnosticar COVID-19 – faleceu em agosto de 2019, antes da pandemia.

Quando uma célula vai se multiplicar, gera em seu interior cópias de seu DNA. Assim, quando a célula original se divide, cada “célula filha” contém uma cópia completa de material genético. O que o PCR faz é imitar este processo em laboratório: a partir de uma amostra de DNA, são geradas muitas cópias. Assim, é possível estabelecer com clareza se determinado material genético está presente em uma amostra.

Em vírus como o SARS-CoV-2, o material genético é composto não de DNA, mas de outro tipo de molécula, chamada RNA. Assim, é necessário utilizar uma técnica complementar ao PCR, capaz de gerar moléculas de DNA a partir do RNA do vírus, e em seguida fazer a multiplicação.

Teste molecular versus exame sorológico

Durante a pandemia de COVID-19, dois tipos de testes vêm sendo usados para identificar infecções: o molecular, feito a partir da técnica PCR, e o sorológico, que procura, no sangue dos pacientes, anticorpos específicos contra o SARS-CoV-2. O exame molecular, por identificar material genético do vírus nas amostras extraídas das mucosas de pacientes – geralmente por meio de um swab inserido nas narinas –, é o mais indicado para detectar infecções ativas.

“Para que o teste PCR seja positivo, normalmente é necessário que o organismo do hospedeiro esteja infectado e produzindo vírus. Então, o PCR ajuda a diagnosticar infecções que estão ativas, com produção de vírus”, explica Lobo. “Já os testes sorológicos buscam por anticorpos que o nosso organismo produziu em resposta ao vírus. A presença de anticorpos indica que houve, em algum momento, uma infecção”.

Segundo o especialista, o teste molecular é o mais indicado para realizar logo após o início dos sintomas da COVID-19, de modo a orientar condutas médicas sobre o cuidado com os pacientes. O exame sorológico, por sua vez, é mais útil para fazer estudos epidemiológicos, que procuram entender a dinâmica da infecção em uma determinada população.

Falsos positivos e falsos negativos

Nenhum teste diagnóstico é perfeito. Portanto, existe chance, embora pequeníssima, de um exame realizado com a técnica PCR apresentar um resultado impreciso. No diagnóstico da infecção por SARS-CoV-2 via PCR, porém, é mais provável acontecer um caso falso negativo – isto é, uma pessoa infectada apresentar resultado negativo no exame – do que um falso positivo – em que um paciente não contaminado apresente resultado positivo. “O teste PCR para COVID-19 tem um sensibilidade muito alta, então, o número de falsos positivos é baixíssimo. Quase não acontece”, afirma Lobo.

Um resultado falso negativo pode acontecer quando um paciente realiza o teste cedo demais, num momento em que a quantidade de vírus em seu organismo ainda é muito pequena para ser detectada via PCR. Outras possibilidades seriam a coleta inadequada de material ou um problema no armazenamento ou transporte das amostras. Por isso, se um paciente com sintomas de COVID-19 receber um resultado negativo, é recomendável manter o isolamento e refazer o teste alguns dias depois.


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