Categoria: Fato x fake

Pesquisadores contestam a ideia de que deixar a COVID-19 se espalhar na população criaria proteção coletiva contra a doença no Brasil.

Desde o começo da pandemia, certos grupos defendem que é necessário deixar a COVID-19 infectar parte da população – em especial as pessoas que não fazem parte do grupo de risco para as formas graves da doença –, de modo a desenvolver imunidade coletiva contra ela. Mais recentemente, postagens nas redes sociais vêm afirmando que cidades ou regiões que já tiveram grande parte de suas populações infectadas atingiram um patamar de “imunidade de rebanho”, em que a doença seria naturalmente contida. Os dois raciocínios são falaciosos, segundo especialistas.

O conceito de imunidade de rebanho, também chamado imunidade coletiva ou proteção coletiva, corresponde à proteção que a sociedade como um todo tem quando uma parte da população já está imune à doença – o que geralmente se consegue por meio da vacinação em massa. “Se uma quantidade suficientemente grande de pessoas está protegida, a doença não consegue mais se espalhar, porque uma pessoa contaminada não encontra uma pessoa suscetível a quem transmitir”, esclarece o médico e pesquisador Marcio Bittencourt, do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. A proporção de pessoas a serem vacinadas para atingir a imunidade de rebanho varia de acordo com o vírus, bactéria ou outro agente infeccioso que se queira combater.

No caso da COVID-19, como ainda não existe vacina disponível, é descabido pensar em imunidade de rebanho, por dois motivos principais: primeiro, seria necessário deixar a população se infectar livremente, o que acarretaria altos números de mortos e pessoas com sequelas da doença, além de sobrecarregar os sistemas de atendimento em saúde. “É como você estar numa guerra e dizer que vai deixar o inimigo fazer o que quiser. A guerra vai acabar porque você vai perder. Isso não é uma estratégia, é ausência de estratégia”, compara Bittencourt.

Além disso, estudos recentes sugerem que a imunidade adquirida por quem já teve COVID-19 pode ser apenas temporária. Assim, ainda que algumas regiões atingissem certa proteção coletiva, ela seria instável no médio e no longo prazo. Meses depois, o vírus voltaria a circular naquela mesma população. Portanto, ao que tudo indica, é impossível afirmar que qualquer região no Brasil ou no mundo tenha, de fato, atingido imunidade de rebanho contra a COVID-19.

Mas, se a proteção coletiva ou imunidade de rebanho é impossível de atingir sem uma vacina eficaz, o que explica a desaceleração do crescimento do número de casos e mortes pela COVID-19 em algumas regiões onde muitas pessoas já foram infectadas? Bittencourt lembra que desaceleração das transmissões é um fenômeno conhecido e previsível, que acontece por três fatores principais: a prática de estratégias de controle da propagação do vírus (como distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos), a grande quantidade de pessoas já infectadas (e que, portanto, adquiriram imunidade pelo menos temporária contra o vírus) e uma possível sazonalidade da infecção (como sugere a curva de casos na Europa, onde o número de novos casos baixou durante os meses de verão e, agora, volta a subir).

Bolhas de proteção

Outra forma de explicar a desaceleração da doença em algumas regiões é o fenômeno das bolhas de proteção, conforme sugere um grupo multidisciplinar de pesquisadores brasileiros que desenvolveu um modelo matemático para estudar a pandemia. A iniciativa, que recebeu o nome de Ação COVID-19, vem avaliando a evolução do número de casos em diferentes regiões do país. “Em março, já conseguíamos prever que a epidemia viria em ondas”, afirma a física Patrícia Magalhães, pós-graduanda na Universidade de Bristol, na Inglaterra. “Vemos que há surtos em certas regiões, a curva de infectados sobe e depois desce. Essa queda se explica pelo que chamamos esgotamento de rede: um doente contamina as pessoas à sua volta, e depois acaba não tendo mais a quem contaminar”.

Em um trabalho divulgado em agosto como pre-print – portanto, ainda sem revisão por pares – a pesquisadora e outros colaboradores da Ação COVID-19 avaliam a dinâmica populacional da doença na cidade de São Paulo, considerando dados como a porcentagem da população que já teve contato com o vírus e a parcela de pessoas que estiveram confinadas em casa ao longo dos meses. Ao contrário do que dizia a intuição de parte dos autores, o número de novos casos na cidade não continuaria aumentando indefinidamente, mas, segundo o modelo, em dado momento começaria a cair, por causa do que eles chamaram de “bolhas de proteção”.

O economista José Paulo Guedes Pinto, professor da Universidade Federal do ABC e co-autor do estudo, explica: “O isolamento social, o não contato entre pessoas de diferentes localidades, a cultura das intervenções não farmacêuticas (lavar as mãos, usar máscaras), tudo isso restringe a rede de infecção do vírus e produz algumas bolhas locais de proteção. Então você tem, por exemplo, bairros em que poucas pessoas pegaram o novo coronavírus e, portanto, estão suscetíveis, mas têm pouco contato com bairros onde muitas pessoas pegaram e ainda estão transmitindo. Isso não é imunidade de rebanho: é um equilíbrio instável, que pode ser furado a qualquer momento”. Em outras palavras, o número de casos pode voltar a subir depois de certo tempo em queda.

Portanto, a desaceleração da transmissão da COVID-19, embora esperada, não pode ser vista como indício de que a pandemia vai se controlar naturalmente. O vírus continuará circulando, provavelmente, por um bom tempo, deixando pessoas doentes e causando mortes. “Temos que pensar em como conviver com isso e como proteger as pessoas mais vulneráveis”, opina Magalhães.

Pinto completa: “Para atingir de fato a imunidade de rebanho, é preciso desenvolver uma vacina que seja eficaz para a maioria das pessoas, que desenvolva uma imunidade estável e previsível, e vacinar a maior parte da população. E hoje a gente está longe disso”. Bittencourt também concorda. “A vacina seria a principal estratégia de controle da doença no longo prazo. Nada substitui uma vacina”, conclui.


Postagens nas redes sociais usam o exemplo da Suécia, que não impôs o fechamento de escolas e estabelecimentos comerciais, para criticar recomendações dos principais órgãos de saúde.

“A Suécia estava certa”, dizia uma postagem replicada nas redes sociais. Seu principal argumento era o de que o país europeu, que não impôs medidas rígidas para promover o distanciamento social, ainda assim viu diminuírem, com os meses, o número de mortes registradas por COVID-19. Seria este um argumento válido para criticar medidas que promovam o distanciamento social no Brasil? Dificilmente.

Logo no início da pandemia, vários órgãos de saúde começaram a recomendar medidas que reduzissem o contato entre as pessoas, como forma de evitar que pacientes contaminados pela COVID-19 transmitissem a doença a terceiros. “Essas medidas foram tomadas com base em estudos de simulação matemática que mostraram que era necessário promover o distanciamento social, no sentido de impedir ou diminuir a transmissão da doença, para que isso não levasse a um congestionamento grave dos sistemas de saúde, que não estavam preparados para atender, de forma simultânea, a todos os casos”, esclarece o infectologista Kleber Luz, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Vários países em todo o mundo adotaram medidas de distanciamento social antes mesmo que a situação da COVID-19 se tornasse grave em sua população. Países como Noruega, Dinamarca e Alemanha conseguiram manter baixos os seus índices de mortos pela pandemia. “O distanciamento social, estatisticamente falando, é a melhor e a mais barata ação que você pode fazer para segurar a dispersão da doença”, avalia o biólogo Marcelo Mendes Brandão, do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Universidade Estadual de Campinas, acrescentando que, em países que não adotaram ou adotaram tardiamente essas medidas, como Suécia, Inglaterra e País de Gales, houve um pico de contaminação e mortes. “Na Inglaterra, que resolveu fechar vários estabelecimentos a partir do final de abril, dá pra ver que houve uma queda enorme no número de casos. É o efeito do distanciamento”, completa. “Países que promoveram o distanciamento não tiveram pico de mortes”.

Críticas da comunidade científica

O modelo sueco para o enfrentamento da pandemia foi tema de reportagem na revista Science em 6 de outubro. Segundo o texto, as autoridades daquele país tomaram medidas apenas modestas para reduzir aglomerações e, embora parte da população tenha decidido ficar em casa, lojas e restaurantes continuaram abertos. Contatos próximos de casos confirmados de COVID-19 também não foram solicitados a ser testados ou fazer quarentena, como ocorre em outros países. Em geral, a quantidade de testes realizados na Suécia ficou atrás da média de outros países.

Parte da comunidade científica se manifestou publicamente contra a forma como o governo sueco tem lidado com a pandemia, argumentando que o preço dessa abordagem foi muito alto. “A taxa de mortalidade cumulativa do país desde o início da pandemia rivaliza com a dos Estados Unidos, com sua resposta caótica. E o vírus teve um impacto chocante nos mais vulneráveis”, diz a reportagem, citando o alto número de mortes em residências de idosos, cujos doentes, muitas vezes, sequer eram levados aos hospitais. Embora o número de casos tenha diminuído durante o verão no hemisfério Norte, cientistas temem que surja uma nova onda nos meses mais frios, e afirmam que os casos já voltaram a crescer na região da capital, Estocolmo.

Realidade brasileira

Comparar as estratégias usadas na Suécia e seus resultados com o que foi ou poderia ser feito no Brasil seria, no mínimo, falta de cuidado. Afinal, os dois países têm características muito distintas, a começar pelo tamanho do território e da população.

Brandão, que atua na área de bioinformática, tem estudado como a queda no grau de distanciamento social se relaciona com o número total de casos de COVID-19 em algumas regiões brasileiras, especialmente no estado de São Paulo. Alguns resultados já apontam que o relaxamento das restrições corresponde a um aumento significativo no número de casos. “O estado de São Paulo vinha numa certa estabilidade no número de novos casos. No feriado de 7 de setembro, vimos um aumento de 46% no trânsito do estado e, depois, um crescimento também de 46% no número de casos de COVID-19”, exemplifica. “Nosso modelo também indicou que, em algumas cidades do interior do estado, houve pico de casos cerca de 20 dias após as festas das padroeiras. Essas coincidências nos fazem pensar…”

Embora confie que o distanciamento social seja eficaz, o especialista reconhece que não é fácil mantê-lo, especialmente em comunidades mais pobres, onde muitas pessoas dividem espaços pequenos e a maioria dos trabalhadores não pode ficar em casa. Ele também acredita que a reabertura de escolas e estabelecimentos comerciais, observada em diferentes estados brasileiros, não voltará atrás.

Para Luz, a realidade brasileira dificulta o estabelecimento e o cumprimento de medidas rígidas como o lockdown (quarentena) proposto em outros países. “Adotar um lockdown em um país gigante como o Brasil, eu penso que é, na prática, impossível. Temos uma estratificação social muito grande, realidades completamente diferentes”, pondera, chamando atenção para o fato de que apenas parte dos trabalhadores, por exemplo, foi capaz de permanecer em casa sem prejuízo de renda – o que limitou a adesão da população brasileira às recomendações de saúde pública.

“Precisamos pensar em corresponsabillidade. Eu não posso cobrar 100% do governo uma política de distanciamento, nem 100% dos cidadãos”, conclui Brandão. “A falta de organização é o nosso problema. Falta pé no chão, pensar que a gente precisa aprender a conviver com o vírus por muito tempo. Precisamos de políticas sérias indicando para as pessoas o que fazer”.


Movimentos religiosos norte-americanos manifestaram-se contra o uso de células embrionárias humanas no desenvolvimento de novos imunizantes.

O desenvolvimento de vacinas contra o SARS-Cov-2, causador da COVID-19, tem sido alvo de recorrentes notícias falsas no Brasil e no mundo. O aplicativo Eu Fiscalizo, parceiro da iniciativa COVID-19 DivulgAção Científica, identificou mais uma informação enganosa que vem circulando nas redes sociais: a ideia de que algumas vacinas conteriam células de fetos abortados. Isso não é verdade.

A origem desta desinformação parece estar na manifestação de grupos religiosos e antiaborto dos Estados Unidos e do Canadá contra as pesquisas que fazem uso de uma linhagem de células embrionárias humanas, isto é, de células cultivadas em laboratório a partir de uma célula original, retirada de um feto. Pelo menos quatro vacinas em desenvolvimento contra a COVID-19 fazem uso da mesma linhagem celular, e uma quinta candidata faz uso de células embrionárias de outra linhagem.

“Linhagens de células humanas são usadas em várias pesquisas, por exemplo, no desenvolvimento de medicamentos, vacinas e anticorpos monoclonais”, conta a imunologista Cristina Bonorino, pesquisadora da Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e membro da Sociedade Brasileira de Imunologia.

A especialista, que trabalha no desenvolvimento de vacinas virais, explica que linhagens celulares de origem humana são usadas como pequenas fábricas de proteínas e vírus. Em alguns casos, é possível usar bactérias para este fim. Porém, em certas pesquisas, a utilização de células humanas é indispensável. “Quando precisamos que o vírus tenha as mesmas características que ele tem quando se replica no organismo humano, precisamos usar células humanas”, complementa.

Linhagens celulares da década de 1970

Pesquisas atuais fazem uso de linhagens celulares cuja origem remonta a décadas atrás. No caso das vacinas contra a COVID-19, a linhagem utilizada em pelo menos quatro projetos, conhecida como HEK-293 – a sigla HEK, em inglês, denota que são células humanas, renais e embrionárias – foi iniciada em um laboratório holandês na década de 1970. A origem foi um feto abortado legalmente no país.

Depois de isoladas, as células foram mantidas no laboratório para continuar se replicando, dando origem a novas células que vêm sendo usadas em pesquisas desde então. Para manter a linhagem, não é necessário utilizar material proveniente de novos fetos.

No interior das células cultivadas em laboratório, os pesquisadores podem fazer as reações necessárias para testar e desenvolver medicamentos e vacinas. “Mas as células não fazem parte da composição dos produtos finais”, ressalta Bonorino. O que compõe as vacinas ou medicamentos desenvolvidos com essa metodologia são os vírus ou proteínas produzidos pelas células, e não as células em si.

Por que usar células embrionárias?

Células humanas adultas têm uma capacidade limitada de se dividir para dar origem a novas células. Por isso, não são as mais adequadas à criação de linhagens celulares para pesquisa. Já as células embrionárias e as células tumorais têm enorme capacidade de divisão e deram origem a linhagens celulares bem-sucedidas.

As células tumorais, embora se multipliquem o suficiente, não são as melhores representantes de células humanas saudáveis. Por isso, com o tempo as células embrionárias tornaram-se importantes para esse tipo de pesquisa. Desde a década de 1960, vacinas contra rubéola, varicela e hepatite A foram desenvolvidas a partir de estudos com células derivadas de abortos eletivos. Segundo Bonorino, porém, as linhagens utilizadas atualmente tiveram origem décadas atrás: “Hoje em dia ninguém mais faz isso”.

Debate ético e métodos alternativos

Nos anos 1950, uma linhagem de células tumorais humanas conhecida como HeLa foi usada no desenvolvimento de vacina contra poliomielite. A linhagem celular teve origem em um tumor cervical que matou uma mulher afro-americana, Henrietta Lacks. Na época, cientistas descobriram que as células tumorais continuavam se replicando mesmo fora do corpo da paciente – ou seja, no meio de cultura adequado, se tornariam, de certa forma, imortais. Mantidas em laboratório, as células foram usadas em muitas pesquisas diferentes. Já falecida, a paciente não autorizou a utilização de suas células para fins científicos. Sua história e o debate ético que envolve o uso de células humanas são tema do livro A vida imortal de Henrietta Lacks, adaptado também para o cinema.

Desde a criação das primeiras linhagens de células embrionárias humanas até hoje, a comunidade científica conseguiu avanços não apenas nas técnicas e metodologias utilizadas para desenvolver produtos farmacêuticos, mas também no estabelecimento de critérios éticos a serem seguidos pelos pesquisadores. “As discussões éticas surgem ao mesmo tempo que as novas tecnologias”, avalia Bonorino. “Por isso, às vezes demoramos anos para amadurecer essa discussão”.

A especialista conta, ainda, que há muitos esforços no sentido de criar metodologias alternativas capazes de dispensar o uso de linhagens de células humanas. “Um exemplo são as vacinas de RNA, totalmente sintéticas. Outros caminhos são a criação de estruturas celulares em 3D, ou a utilização de células vegetais”, pontua, destacando que é importante que a população, e não apenas a comunidade científica, participe do debate em torno da ética em pesquisas: “Estamos vendo, com a pandemia de COVID-19, que todo mundo pode se informar e participar dessa reflexão”.


Medicamento tem sido alvo de controvérsia desde o início da pandemia. Recentemente, postagens sugerem que ele poderia ter salvado milhares de vidas, mas não há evidências científicas para suportar essa afirmação.

Cloroquina e hidroxicloroquina são dois termos que passaram a fazer parte do vocabulário de muita gente em 2020. Afinal, ambos estão constantemente na mídia, no centro de uma controvérsia sobre como prevenir e tratar a COVID-19, doença que já causou mais de um milhão de mortes no mundo inteiro.

Apesar de não haver evidências científicas robustas para justificar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina como tratamento ou profilaxia contra a infecção pelo novo coronavírus, vira e mexe o assunto volta à tona. No final de setembro, um estudo divulgado pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC, na sigla em inglês) reacendeu, uma vez mais, a discussão.

Como qualquer medicamento pode ter efeitos colaterais, convém investigá-los antes de prescrever seu uso. No caso da cloroquina e da hidroxicloroquina, uma preocupação eram seus efeitos sobre o coração, especialmente em pacientes com história prévia de problemas cardíacos. Porém, o trabalho publicado na revista Europace, da ESC, descreve que o tratamento de curta duração com hidroxicloroquina não levou a arritimias fatais no grupo de pacientes observado.

Com esse resultado em mãos, defensores da hidroxicloroquina já levantaram a bandeira: milhares de vidas poderiam ter sido salvas. Porém, como o próprio press release divulgado pela ESC destaca, “este estudo não foi desenhado para testar a eficácia da hidroxicloquina sobre a COVID-19”. Trocando em miúdos, o trabalho, embora mostre que o medicamento não matou os pacientes, não afirma que ele foi útil em sua recuperação.

Por isso, para o infectologista Plinio Trabasso, do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, o estudo recém-publicado não muda a forma como os médicos devem tratar pacientes diagnosticados com COVID-19. “Está muito bem sedimentado,  através de outros estudos, que a cloroquina não tem qualquer impacto na melhora clínica ou mesmo na sobrevida de pacientes com COVID-19”, afirma.

A pneumologista Patrícia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, reforça: “O uso de cloroquina ou hidroxicloroquina não é recomendado para tratamento ou profilaxia da COVID-19”. Ela destaca, também, que, embora tenha sido publicado agora, o estudo da ESC foi realizado ainda no início da pandemia, durante os meses de março e abril, quando investigações sobre a eficácia desses medicamentos estavam em andamento.

Medicina baseada em evidências

A comunidade científica internacional tem trabalhado intensivamente para esclarecer as características do novo coronavírus e da doença por ele causada. Isso inclui avaliar o potencial terapêutico de diferentes drogas. Porém, antes de recomendar o uso de um ou outro medicamento, é necessário que haja estudos conclusivos sobre sua segurança e eficácia.

“Os recursos para a saúde são escassos, então, quando se gasta recurso com intervenção sem eficácia, se está desperdiçando dinheiro que poderia ser utilizado em medidas realmente eficazes seja no tratamento, seja na prevenção ou no controle desta ou de outra doença”, argumenta Trabasso. O especialista reitera que as condutas dos profissionais e gestores em saúde deve estar baseada em evidências científicas consolidadas. “Somente deste modo é possível alocar recursos em medidas que efetivamente mudem os desfechos (diminuição da mortalidade, diminuição de tempo de hospitalização, diminuição de uso de ventilação mecânica etc.)”, diz.

Ao público, Ribeiro alerta sobre os perigos da automedicação: “Ninguém deve tomar medicamentos sem orientação médica.  Ao apresentar sintomas, é importante procurar o serviço de saúde para o correto acompanhamento”.


Distribuição de produto antes da conclusão dos testes seria perigosa e ilegal.

Enquanto o mundo permanece na expectativa de uma vacina capaz de prevenir a infecção pelo novo coronavírus, muita informação falsa corre nas redes sociais. Em particular, o imunizante criado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e pela empresa farmacêutica AstraZeneca – um dos mais promissores entre os muitos que ainda estão em desenvolvimento – tem sido alvo de diversas fake news.

Nos últimos dias, uma mensagem preocupante circulou nas redes afirmando que a vacina de Oxford estaria sendo comercializada por vendedores ambulantes em Feira de Santana, na Bahia. É importante ressaltar que, como o imunizante ainda está sendo testado, não pode ser comercializado.

Ensaios clínicos

Quando um candidato à vacina é testado em humanos pela primeira vez, já passou por diferentes testes em laboratório, com resultados promissores. Antes de ser disponibilizado para imunização em massa, porém, ele precisa passar por três fases de ensaios clínicos, cujo objetivo é verificar a segurança e a eficácia do produto. No caso da vacina de Oxford, as Fases 1 e 2 foram combinadas e contaram com a participação de mais de mil voluntários no Reino Unido.

Atualmente, a vacina encontra-se na Fase 3, realizada com milhares de voluntários em vários países. No Brasil, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é a instituição que coordena os testes, iniciados em junho. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o recrutamento de 10 mil voluntários. Além de São Paulo, outras cidades participam do estudo, por meio de centros de pesquisa colaboradores: Rio de Janeiro, Salvador, Natal, Porto Alegre e Santa Maria.

No início de setembro, a notícia de que um voluntário da pesquisa no Reino Unido havia desenvolvido sintomas graves após tomar a vacina fez com que o estudo fosse suspenso. Para especialistas, a pausa nos testes é uma mostra de que os ensaios estão atentos à segurança dos voluntários, embora haja debate sobre a transparência do processo. O estudo foi retomado após a avaliação do caso por um comitê científico independente.

Distribuição

“Somente após a finalização do estudo de Fase 3 e obtenção do registro sanitário é que a nova vacina poderá ser disponibilizada para a população”, afirmou, via assessoria de imprensa, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), da Fundação Oswaldo Cruz. No final de junho, o Ministério da Saúde anunciou acordo entre a Fiocruz e a AstraZeneca para produção da vacina no Brasil, no momento oportuno.

Bio-Manguinhos vem se reunindo com a Anvisa com o objetivo alinhar as medidas necessárias para que, uma vez que a vacina seja aprovada, chegue mais rápido à população. Cumpridas todas as etapas regulatórias e de controle de qualidade, a Fiocruz destinará sua produção ao Sistema Único de Saúde, por meio do Programa Nacional de Imunizações, que cuidará do planejamento das campanhas de vacinação.

Até lá, qualquer anúncio de comercialização da vacina de Oxford no Brasil deve ser visto com desconfiança. A venda ou compra de um produto falso ou ainda sem aprovação é perigosa. “Trata-se de um crime contra a saúde pública e a população pode colaborar reportando para a Anvisa e às autoridades policiais, pelos graves riscos à vida humana”, afirmou a assessoria de Bio-Manguinhos.

Outra vacina em testes no Brasil

Além da Unifesp, o Instituto Butantan também lidera ensaios clínicos de uma vacina contra a COVID-19. Coronavac, vacina chinesa produzida pela Sinovac Life Science, está sendo testada em 16 centros de pesquisa brasileiros, espalhados por sete estados e Distrito Federal. Para esse estudo, a Anvisa autorizou recrutamento de 13 mil voluntários. Caso a Coronavac seja bem sucedida nos ensaios de Fase 3, o Instituto Butantan prevê acordo de transferência de tecnologia com a Sinovac para produção da vacina em larga escala. A distribuição ao SUS e disponibilização à população também dependerá da aprovação da Anvisa.

Para entender mais sobre o processo de desenvolvimento das vacinas contra o novo coronavírus, acesse aqui o infográfico que preparamos sobre o tema.

Não há motivo para receio quanto ao uso deste instrumento para aferir a temperatura, afirma especialista.

É provável que a pandemia de COVID-19 tenha mudado a sua rotina de diferentes maneiras. Uma delas é que, ao entrar em alguns estabelecimentos comerciais ou de outra natureza, pode ser necessário aferir sua temperatura. Em geral, o método usado para isso é um termômetro infravermelho, que dispensa contato direto entre a pessoa responsável por fazer a triagem e o cliente que está entrando no estabelecimento – ao contrário dos termômetros tradicionais, o infravermelho não precisa estar em contato com a pele para aferir a temperatura.

Nos últimos dias, circulou nas redes sociais o texto de uma suposta enfermeira australiana manifestando preocupação sobre danos que a exposição à luz infravermelha dos termômetros poderia causar ao cérebro – especificamente, à glândula pineal – e aos olhos humanos. O neurologista Gabriel de Freitas, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, esclarece que não há motivo para preocupação. “Os termômetros de testa conseguem aferir a temperatura corporal a distância, proporcionando uma forma prática e rápida de medir a temperatura de um grande número de pessoas neste momento de pandemia”, esclarece.

O especialista destaca, ainda, que termômetros com luz infravermelha são seguros e aprovados por agências regulatórias dos Estados Unidos e da Europa. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária também já se pronunciou sobre o tema, em nota publicada na página da agência no dia 14 de setembro: “Com base na avaliação de referências bibliográficas e recomendações sobre esses produtos, a Anvisa conclui e informa à população que a medição de temperatura por termômetro infravermelho direcionado à testa é inofensiva ao ser humano. O órgão informa, ainda, que esses produtos não emitem radiação, somente captam o calor emitido pelo corpo humano na forma de radiação infravermelha”. 

A luz infravermelha é, inclusive, utilizada em alguns tratamentos médicos e o termômetro infravermelho é seguro para utilização não só em adultos, como também em crianças e bebês. “O único cuidado que deve ser tomado é de não apontar a luz nos olhos”, completa Freitas. Ele explica, também, que apenas a exposição à luz infravermelha por longos períodos poderia provocar queimaduras na pele e lesões oftálmicas. “Os termômetros não emitem radiação no cérebro e não há nenhum risco de lesar a glândula pineal, como foi falsamente divulgado recentemente nas mídias sociais”, conclui o neurologista.

Diagnóstico de COVID-19 não depende apenas da temperatura corporal

Vale esclarecer, também, que, apesar de muitos estabelecimentos terem adotado a aferição de temperatura como parte de seus protocolos para evitar a transmissão do novo coronavírus entre seus funcionários e clientes, esta prática, sozinha, não é capaz de dizer se uma pessoa está ou não infectada pelo SARS-CoV-2, como destaca a Organização Mundial da Saúde em seu site: “Termômetros são eficazes em detectar pessoas que têm febre (ou seja, temperatura corporal acima do normal). Eles não podem detectar pessoas que estão infectadas com COVID-19”.

Por um lado, a febre é um sintoma comum a diferentes doenças – assim, alguém pode ter febre, mas não ter COVID-19. Por outro, parte das pessoas infectadas com o novo coronavírus não apresentará febre ou qualquer outro sintoma – são os chamados pacientes assintomáticos, que, mesmo não ficando doentes, podem transmitir o vírus a terceiros.

As melhores formas de prevenir a transmissão da COVID-19 são manter distância de pelo menos dois metros de outras pessoas e usar máscaras ao sair de casa, além de higienizar as mãos com frequência. Caso apresente algum sintoma da doença – como febre, tosse, dor de garganta, coriza e falta de ar –, evite o contato com outras pessoas e procure um centro de testagem, seguido de atendimento médico.


Boatos de que o vírus é fruto de manipulação genética repercutiram nas redes sociais nos últimos dias. Mas já em março, no começo da pandemia, análise do genoma do SARS-CoV-2 indicou origem natural.

No final da semana passada, voltaram a circular nas redes sociais e em sites de credibilidade duvidosa fake news sobre a origem da COVID-19. Segundo o boato, o SARS-CoV-2, vírus causador da doença, teria sido criado intencionalmente em laboratório. A autora da denúncia seria uma virologista da Universidade de Hong Kong, escondida nos EUA por meio de retaliação do governo chinês. As evidências científicas já publicadas até agora, no entanto, apontam em outra direção: o SARS-CoV-2 tem origem natural, tendo evoluído a partir de vírus que circulam em espécies animais, como morcegos e pangolins.

Quando um vírus misterioso surgido em Wuhan começou a infectar humanos, uma das primeiras atitudes da comunidade científica chinesa foi isolar o vírus e descrever seu genoma – isto é, desvendar as informações genéticas contidas no vírus. Essa descrição foi o ponto de partida para o desenvolvimento de outros estudos, como a investigação sobre a origem do SARS-CoV-2.

“A maneira como identificamos e caracterizamos os vírus atualmente é a técnica chamada sequenciamento de ácido nucleico  (DNA ou RNA). Com essa técnica, é como se fizéssemos a ‘impressão digital’ dos vírus”, explica Luciana Costa, professora associada do Departamento de Microbiologia da UFRJ. “Com os dados do sequenciamento, nós comparamos essa ‘impressão digital’ com todas as outras de outros vírus conhecidos e, assim, determinamos o parentesco entre eles. Fazendo isso, nós podemos identificar com mais de 90% de certeza a origem de uma sequência. Podemos dizer, inclusive, se alguns ‘pedaços’ da sequência ou mesmo a sequência inteira foi ‘criada’ pelos seres humanos”.

Foi exatamente isso que fez um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália. Em março, eles publicaram na prestigiosa revista Nature Medicine suas conclusões: “Nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é algo construído em laboratório nem um vírus propositalmente manipulado”, escreveram os autores (a tradução é nossa). Os pesquisadores relatam, em seu trabalho, que o vírus evoluiu de forma natural e sua transmissão entre humanos se originou a partir de uma única pessoa infectada, conforme explica um press release divulgado por ocasião da publicação do artigo.

Universidade de Hong Kong desmentiu pesquisadora

Em julho, a Universidade de Hong Kong (HKU, na sigla em inglês) publicou nota sobre uma entrevista concedida pela pesquisadora Yan Limeng a uma emissora de TV. Ela vem afirmando à imprensa ter provas da criação do SARS-CoV-2 por meio de manipulação genética em laboratório.

Embora a cientista tenha, de fato, realizado pós-doutorado na instituição, já não está vinculada a ela. “Dra. Yan nunca conduziu nenhuma pesquisa sobre a transmissão entre humanos do novo coronavírus na HKU durante os meses de dezembro de 2019 e janeiro de 2020, como afirmou em entrevista”, diz a universidade. A HKU também declarou que não reage a boatos e que não vai mais comentar este tema.


Fique de olho nas fontes oficiais para não cair em notícias falsas.

Mesmo com o número de casos de COVID-19 no Brasil ultrapassando os quatro milhões e o número de óbitos acima dos 128,5 mil (dados do Ministério da Saúde em 9 de setembro), notícias falsas sugerem que os dados são exagerados e há quem não tenha se dado conta da gravidade da doença.

Ainda no início da pandemia, fake news sugeriram que muitos atestados de óbito apontavam erradamente a causa de morte como COVID-19, como forma de inflar o número de casos e, consequentemente, os recursos destinados à saúde em cada estado. “O preenchimento da declaração de óbito é um ato médico. O médico é que tem autonomia para preencher todos os dados da pessoa que morreu e fazer uma hipótese da causa daquela morte”, esclarece o sanitarista Christovam Barcellos, vice-diretor do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz). “Dizer que um médico, nessa situação difícil, está cumprindo ordens de um governador, ou ganhando dinheiro para falsificar um atestado de óbito, isso é absurdo”.

Existem, atualmente, três formas de chegar ao diagnóstico de COVID-19, que faz com que um caso passe a fazer parte das estatísticas da doença no compilado das Secretarias Estaduais de Saúde e do próprio Ministério da Saúde. “[No começo da pandemia], a única maneira de se comprovar um caso ou óbito por COVID-19 era por diagnóstico laboratorial, seja por exame molecular (que busca fragmentos do vírus), seja por presença de anticorpos”, narra Barcellos. “Recentemente, o Ministério da Saúde começou a aceitar outras formas de diagnóstico, por exemplo, exames de imagem de pulmão ou diagnóstico clínico-epidemiológico”. Nos exames de imagem, a COVID-19 aparece na forma de lesões nos pulmões, geradas pela inflamação característica da doença. Já o diagnóstico clínico-epidemiológico se dá quando um paciente apresenta diversos sintomas da COVID-19 e, sabidamente, teve contato com alguém que manifestava a doença.

Dados oficiais

O “veículo oficial de comunicação sobre a situação epidemiológica da COVID-19 no Brasil” – como ele próprio se define – é um portal criado pelo Ministério da Saúde, que reúne dados obtidos de todas as Secretarias Estaduais de Saúde, atualizados diariamente no fim da tarde. Eventuais discrepâncias entre os dados encontrados nessa página e aqueles divulgados pelas Secretarias podem ser explicados pela forma como os números são contabilizados: “O Ministério da Saúde divulga os dados segundo a data em que estão chegando a ele, e as Secretarias de Saúde conseguem disponibilizar dados segundo as datas dos sintomas [identificados nos pacientes]. Isso modifica um pouco o formato da curva, embora não altere a quantidade de casos e de mortes segundo as diversas plataformas”, assegura Barcellos.

O Icict/Fiocruz também lançou, em abril, uma plataforma de monitoramento de dados oficiais, o  MonitoraCovid-19. Além dos dados nacionais, a página permite o acompanhamento dos números dos estados e municípios e dados internacionais. O diferencial é permitir a rápida comparação entre eles. Mais recentemente, o banco de dados começou também a incluir outros indicadores além dos números de casos e óbitos por COVID-19, como dados relacionados a mobilidade e trânsito, além de relatos de sintomas por usuários de redes sociais.

Tanto a plataforma do Ministério da Saúde quanto a MonitoraCovid-19 são abertas para consulta por qualquer pessoa interessada e mostram a intensidade com que o país foi atingido pela pandemia.

Afinal, morreu de quê?

Nos últimos dias, outras fake news vêm sugerindo que a maior parte dos óbitos atribuídos à COVID-19 teria sido causada por outros problemas de saúde. A origem dessa notícia foi a informação, disponível na página dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), de que, entre os óbitos relatados nos Estados Unidos, apenas 6% incluíram a COVID-19 como única causa de morte. Em postagens que rodaram o mundo, usuários de redes sociais concluíram que, nos outros casos, a real causa do óbito não teria sido a infecção pelo novo coronavírus, mas outras doenças pré-existentes.

Embora amplamente difundido, esse raciocínio não está correto e foi desmentido por diversos serviços de verificação de notícias, como o da BBC. Em reportagem do dia 4 de setembro, o veículo esclareceu que, em 92% dos casos, a COVID-19 está claramente indicada como causa principal de morte. Porém, nesses casos, o atestado de óbito inclui ainda outras condições (inclusive aquelas decorrentes da COVID-19, como problemas respiratórios) que contribuíram para o desfecho.

Estudos já mostraram que a infecção pelo SARS-Cov-2 tem o potencial de causar impacto sobre diferentes órgãos e sistemas do organismo humano, gerando condições que podem levar à morte. Formação de coágulos sanguíneos,  ataques cardíacos, embolia pulmonar, isquemia nos dedos das mãos e dos pés, insuficiência renal, convulsões, derrames e inflamação cerebral são algumas condições que já foram associadas à COVID-19 – uma doença nova e, portanto, ainda pouco compreendida.

Vale destacar, por fim, que idosos e pessoas com comorbidades como diabetes, problemas cardíacos e doenças pulmonares têm mais risco de desenvolver formas graves da COVID-19 e morrer em decorrência dela. Por isso, em muitos casos, a doença causada pelo novo coronavírus será a causa primária do óbito, ainda que o estado geral de saúde do paciente também tenha contribuído para tal.

Ao contrário: em tempos de pandemia, as campanhas anuais de imunização são ainda mais importantes, pois reduzem os casos de síndrome respiratória grave causadas pelo vírus da gripe.

Todos os anos, o Brasil realiza campanha de vacinação contra gripe, iniciando com foco em idosos, crianças em idade escolar, profissionais da saúde e do ensino e, em seguida, estendendo o excedente de vacinas à toda a população. Em 2020, a campanha teve uma dificuldade extra: em meio à pandemia de COVID-19, algumas mensagens enganosas divulgadas via redes sociais argumentavam que tomar a vacina de gripe poderia deixar o organismo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Porém, os dois especialistas entrevistados pela nossa equipe afirmam que não existe nenhuma evidência de que isso aconteça.

A vacina contra gripe usada no Brasil é feita com vírus inativado, incapaz de causar infecção. Portanto, não pode fazer com que quem a recebe fique doente. As reações adversas mais comuns do imunizante são locais: vermelhidão, dor e inchaço no local de aplicação de vacina. A febre – que não deve ser confundida com gripe! – é um efeito muito raro.

“A coincidência é a maior inimiga da vacina”, argumenta a pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. “A pessoa toma a vacina quando está saudável. Depois, se alguma coisa acontece pouco tempo depois, acaba atribuindo à vacina”. A especialista lembra que os sintomas causados pela gripe são semelhantes àqueles causados por outros vírus respiratórios, o que pode gerar confusão.

O virologista Flávio Guimarães da Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais, concorda. A circulação desses vírus se concentra nos meses mais secos e frios do ano, que coincidem com os períodos em que são realizadas campanhas de vacinação contra gripe. “A pessoa se vacina contra a gripe e, dois dias depois, contrai um resfriado”, exemplifica. Há uma tendência a ligar os dois eventos. “Mas essa correlação causal não é verdadeira”, garante o pesquisador.

Como o vírus da gripe sofre mutações com muita facilidade, a vacina é atualizada anualmente, de acordo com as cepas virais que vêm circulando no mundo. “Eventualmente, há o surgimento de uma nova variante de gripe, que ainda não foi incluída na vacina”, ressalva Fonseca. “Assim, a pessoa vacinada pode adoecer ao ser infectada com essa nova variante, mas isso é mais raro. O mais comum é confundir outras infecções respiratórias com gripe.”

Vacinas em tempos de coronavírus

É infundado o medo de que o imunizante contra gripe aumente o risco de contrair o SARS-CoV-2, causador da COVID-19. Ao contrário, a comunidade científica acredita que, em tempos de pandemia, a vacinação torna-se ainda mais relevante.

“A gripe é uma doença potencialmente grave, que mata, em média, mil brasileiros por ano, em especial idosos e pessoas com doenças crônicas, além de crianças. Além disso, a gripe é capaz de causar pandemias, como a que vivemos em 2009”, destaca Ballalai, referindo-se à emergência mundial causada pelo vírus H1N1, causador da gripe A.

Durante a pandemia de COVID-19, a vacinação ajuda a reduzir os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) pelo vírus da gripe. “A SRAG é causa de internação e morte, e os pacientes com essa síndrome causada pela gripe competem por leitos com os pacientes com COVID-19”, diz.

Fonseca acrescenta, também, que a vacinação em massa contra gripe agiliza o diagnóstico de pacientes graves durante a pandemia: “Quando um paciente chega ao hospital com sintomas respiratórios graves, se há a informação de que aquele indivíduo está vacinado, o médico pode afastar a hipótese de ser gripe, e começar a investigar a hipótese de ser COVID-19. Quanto mais gente for vacinada contra gripe, mais poderemos descartar essa possibilidade na hora do diagnóstico”.

Não é verdade que as máscaras possam causar redução da oxigenação no sangue ou intoxicação por CO2.

Da mesma forma como manter o distanciamento social e higienizar frequentemente as mãos, usar máscara ao sair de casa é, hoje, considerado uma das principais formas de evitar a disseminação da COVID-19. Ainda assim, boatos nas redes sociais levantam a dúvida: poderia o uso prolongado de máscaras prejudicar a respiração, causando hipóxia (diminuição das taxas de oxigênio no sangue)? Consultamos dois especialistas sobre o tema, e a resposta foi unânime: não. Utilizar máscara, ainda que por muito tempo, não vai deixar você sem ar!

“As máscaras são utilizadas há décadas por profissionais de saúde, tanto durante cirurgias quanto em ambientes hospitalares onde há risco de transmissão de infecções por via aérea”, lembra a pneumologista Patrícia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz. “Não há contraindicação”, afirma. O infectologista Antonio Bandeira, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, concorda: “Em pessoas saudáveis, as máscaras, mesmo se utilizadas de forma prolongada, se obedecidas as recomendações de uso, não causam nenhum problema de saúde ou respiratório”.

Os dois especialistas ressaltam que é preciso obedecer as recomendações de uso de cada tipo de máscara. As do tipo N-95 devem ser reservadas aos profissionais de saúde em ambientes hospitalares. As máscaras cirúrgicas, além de serem usadas pelos profissionais de saúde, devem ser a opção escolhida por idosos ou pessoas com comorbidades como doenças cardíacas e pulmonares, e também pelas pessoas que têm COVID-19 ou que estão cuidando de alguém que está doente. Já o restante da população deve optar pelas máscaras de tecido.

Bandeira ressalta que cada tipo de máscara tem um tempo máximo pelo qual deve ser usado. “Máscaras cirúrgicas devem ser trocadas a cada quatro ou seis horas, no máximo. Máscaras de tecido, a cada três ou quatro horas”, orienta. Além disso, é importante trocar a máscara sempre que ela ficar úmida ou suja. Antes de retirar ou colocar máscaras, também é fundamental higienizar as mãos com água e sabão ou álcool em gel. Além disso, deve-se evitar tocar a parte central das máscaras – melhor manipulá-las pelos elásticos.

Os especialistas também indicam que se use máscaras durante todo o tempo que se permanecer fora de casa, incluindo nos transportes coletivos, nos locais de trabalho, fazendo esportes ou caminhando pelas ruas. “Não se deve tirar a máscara ao falar, ao espirrar ou ao tossir”, alerta Bandeira. Ribeiro lembra, ainda, que é importante, ao sair de casa, levar máscaras sobressalentes, caso seja necessário trocá-las.

Orientações sobre máscaras de tecido

Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária divulgaram orientações sobre como confeccionar máscaras de tecido caseiras. Elas devem ter três camadas de tecido e estar bem ajustadas ao rosto, cobrindo nariz, boca, queixo e laterais da face.

Segundo a OMS, a camada interna da máscara, que fica em contato com a pele, deve ser de tecido que absorva com facilidade a umidade da respiração, como o algodão, preferencialmente de cor clara – pois fica mais fácil identificar quando está úmida ou suja. Já a camada do meio agirá como um filtro e pode ser feita de tecido de polipropileno. Por fim, a camada extrerna deve ser de tecido hidrofóbico, ou seja, que vai repelir gotículas e umidade. O material ideal é o poliéster ou uma mistura de poliéster e algodão. Ao comprar ou fazer máscaras de tecido, tenha atenção a esses detalhes.

Ribeiro alerta, ainda, para o perigo de ficar experimentando máscaras de tecido em uma loja, por exemplo. “É um risco grande”, diz. A especialista também ressalta que as máscaras são de uso individual e não devem ser compartilhadas.

Respiração e uso de máscara

Atualmente, a recomendação do uso de máscaras vale para todo lugar onde haja transmissão comunitária do vírus e não seja possível rastrear e isolar todos os casos de COVID-19. É o caso do Brasil, onde há grande número de adoecimentos ao mesmo tempo.

Perguntada sobre se existem grupos específicos a quem o uso de máscara seria contraindicado, Ribeiro explicou que são pouquíssimas exceções: “As máscaras não devem ser utilizadas por quem não consegue colocá-las e retirá-las sem auxílio, como crianças menores de dois anos ou idosos mais velhos, com problemas motores”.

A pneumologista adverte, ainda, que, para os pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica em estágio avançado, que têm, geralmente, falta de ar, o uso de máscara pode ser muito desconfortável. “Porém, são pacientes de alto risco, que não devem sair de casa durante a pandemia, a menos que estritamente necessário, como para ir ao médico”.

Sobre a sensação de que respirar é mais difícil usando máscara, a especialista garante que, embora possa haver desconforto, as máscaras de tecido não impedem a troca de gases. “O incômodo vem porque a máscara é uma barreira física; há uma sensação de que está mais difícil respirar, especialmente andando mais rápido ou fazendo exercícios”, explica. “Mas é seguro e necessário usar máscara neste momento, aliado a medidas de distanciamento social e higiene das mãos”.