Categoria: Fato x fake

Há vários exemplos bem sucedidos. A estratégia, no entanto, não deve ser usada sozinha, mas combinada com outras para reduzir a transmissão da COVID-19.

Desde o início da pandemia de COVID-19, a palavra lockdown passou a fazer parte do vocabulário dos brasileiros. No início, eram notícias distantes, sobre, por exemplo, a cidade chinesa de Wuhan, onde o SARS-CoV-2, vírus causador da doença, foi identificado pela primeira vez. Agora, debate-se muito se as cidades brasileiras devem adotar o lockdown como estratégia para reduzir o número de casos e óbitos relacionados à COVID-19 e, consequentemente, a pressão sobre os hospitais, que passam por uma crise de ocupação de leitos de UTI. Fake news divulgadas em redes sociais sugerem que o lockdown não funciona. Já o sanitarista Christovam Barcellos, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz, afirma que o lockdown pode ser uma estratégia eficaz, mas não deve ser a única.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define lockdown como a tomada de “medidas de distanciamento social em larga escala e restrição de mobilidade” e defende que essa estratégia pode reduzir a transmissão da COVID-19, na medida em que limita o contato entre as pessoas. Embora admita que lockdowns podem ter impacto sobre os indivíduos e sobre a sociedade, a OMS reconhece que, por vezes, o lockdown é a única opção possível para desacelerar o contágio e ganhar tempo no combate à pandemia.

Barcellos lembra que esta estratégia tem sido utilizada com sucesso em alguns países, mesmo aqueles que já iniciaram a vacinação de suas populações. “Um dos melhores exemplos é Portugal, que estava sofrendo uma terceira onda muito perigosa agora em janeiro e fevereiro de 2021. O país decretou várias medidas de restrição, com apoio do governo para as pessoas ficarem em casa, e conseguiu baixar o número de novos casos”.

No Brasil, um país maior e mais populoso, as medidas precisam ser adaptadas à realidade de cada região. O que funciona na Amazônia, por exemplo, é diferente daquilo que pode ser eficaz no Sudeste ou no Sul. Segundo Barcellos, as regiões metropolitanas estão entre as mais desafiadoras, por causa das populações maiores e também da grande circulação de pessoas entre os municípios. Nesses casos, é preciso que as medidas de restrição de atividades e mobilidade sejam articuladas. O especialista destaca, ainda, a pobreza e as desigualdades que temos no Brasil adicionam um desafio extra às medidas de lockdown: “Muitas pessoas só vão conseguir ficar em casa da maneira adequada se houver solidariedade e apoio social.”

Algumas cidades brasileiras decretaram lockdown e começam a ver resultados. Mas eles não são imediatos: a redução no número de casos e óbitos vem semanas após a adoção de medidas restritivas. “Fortaleza e Salvador, por exemplo, já têm resultados positivos, com uma adesão muito grande da população. Em duas semanas, o número de casos já começa a reduzir. No longo prazo, isso vai diminuir a pressão que está havendo sobre os hospitais, com liberação de leitos”, avalia o sanitarista. O município de Araraquara (SP) também usou um lockdown de 10 dias em fevereiro como estratégia para frear a COVID-19 – nas semanas seguintes, houve queda no número de novos casos.

Lockdown é diferente de isolamento de casos e contatos

Vale lembrar que as medidas de lockdown impostas a determinados municípios não deve ser confundida com o isolamento de pacientes diagnosticados com COVID-19 ou com suspeita da doença. Independentemente de como estão as atividades (comeciais, educacionais, de lazer etc.) em uma localidade, “pessoas que têm sintomas, estão com suspeita de COVID-19 ou testaram positivo – ainda que assintomáticas – devem ficar em isolamento”, orienta Barcellos. Isso vale mesmo para quem divide a casa com alguém: na medida do possível, é preciso reduzir o contato entre as pessoas. Ele também sugere que pessoas mais frágeis ou vulneráveis, incluindo idosos, obesos e portadores de doenças crônicas (ainda que jovens), redobrem os cuidados, pois têm um risco maior de desenvolver formas graves da COVID-19.

Além disso, é fundamental saber que o lockdown, ainda que seja uma estratégia eficaz, não pode ser a única medida de controle da pandemia. Vacinação, políticas de testagem, distanciamento social e uso de máscaras também são medidas fundamentais, e devem ser combinadas para aumentar nossas chances de conter a COVID-19.


Medicamento tem ação comprovada para pacientes com comprometimento pulmonar, mas não deve ser usado precocemente, nem em casos leves ou moderados – situação em que pode agravar o quadro da doença.

Uma das denúncias recebidas pelo aplicativo parceiro Eu Fiscalizo nos últimos dias tratava de uma postagem sobre a importância da dexametasona – um corticosteroide – para salvar vidas durante a pandemia de COVID-19. A informação parece fora de contexto: embora o medicamento venha sendo utilizado, com sucesso, em pacientes graves, não deve ser usado de forma profilática ou preventiva, e nem em casos leves da doença. Os especialistas que consultamos reforçam, também, os perigos da automedicação.

O médico Marcio Bittencourt, do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo, explica que há vários corticoides no mercado, e que o próprio corpo humano produz esses hormônios. Nos medicamentos, usa-se doses mais altas dessas substâncias para, por exemplo, tentar modular a resposta imune do paciente.

Segundo o cardiologista Luís Correia, da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, a dexametasona é uma medicação de benefício comprovado no caso de pacientes com COVID-19 internados por complicação respiratória, isto é, pacientes que estão precisando de suplementação de oxigênio ou mesmo ventilação invasiva. A evidência científica que embasa o uso da dexametasona é o estudo Recovery, realizado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, que testou diferentes medicamentos para o tratamento de pacientes hospitalizados. Em junho de 2020, a equipe divulgou um comunicado de imprensa informando que a dexametasona “reduz em até um terço a mortalidade entre doentes hospitalizados com complicações respiratórias graves da COVID-19”.

Correia, no entanto, ressalta que pacientes que não estão com sintomas de falta de ar não têm uma inflamação pulmonar importante e, assim, não seriam beneficiados pelo uso do corticoide, que é um anti-inflamatório. “É dar um remédio a quem não precisa”, avalia, sublinhando que, como qualquer fármaco, a dexametasona também pode causar efeitos colaterais e, portanto, a automedicação é contraindicada.

Para a biomédica Ana Paula Herrmann, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, usar dexametasona de forma indiscriminada é desvirtuar o conhecimento que a ciência já gerou sobre a ação desse medicamento em pacientes com COVID-19.

“Os corticosteroides, em geral, inibem a resposta do sistema imune. Isso é importante na fase inflamatória da doença, quando a resposta do nosso organismo à infecção acaba sendo mais prejudicial do que o próprio vírus”, explica a cientista. “Essa resposta inflamatória exagerada pode acabar causando dano nos tecidos, e a dexametasona tem razão de ser usada para inibir essa fase inflamatória, quando o paciente já está em estado grave, necessitando de oxigênio suplementar”.

Herrmann também citou o Recovery para justificar por que não se deve usar a dexametasona em casos leves de COVID-19: o estudo apontou indícios de que, nesses pacientes, a dexametasona pode ser prejudicial. “Os corticosteroides não devem ser usados nas fases iniciais da doença, justamente porque vão inibir a resposta do sistema imune – a única arma que temos para combater o vírus no início da infecção”, aposta a biomédica.

Bittencourt concorda. “A medicação, usada na hora certa e do jeito certo, ajuda. Se usada na hora errada e do jeito errado, não só não ajuda, como atrapalha”, resume. “A automedicação precoce não faz nenhum sentido. Essa medicação deve ser usada, por indicação médica, nos casos mais complexos”.

Por fim, Herrmann ressalta a importância de diretrizes claras para guiar a atuação dos médicos no tratamento da COVID-19 no país: “Infelizmente, o que vemos é uma falta de protocolo. Qual é o critério específico que diz se um paciente deve ou não começar a fazer uso de dexametasona? No Brasil, não há muito consenso estabelecido e documentado, então, cada profissional acaba seguindo o seu próprio entendimento do que seja um tratamento adequado. Precisamos de um consenso e de um protocolo, de diretrizes terapêuticas para guiar o tratamento da COVID-19”.


Teste tem alta especificidade e mostra se a pessoa está na fase aguda da doença.

Apesar de ser um grande aliado no diagnóstico de pacientes com COVID-19 no mundo inteiro, o teste conhecido como PCR – da sigla, em inglês, para reação da polimerase em cadeia – vem sendo alvo de fake news. Uma fala atribuída a uma médica holandesa defende, sem nenhuma evidência comprovatória, que até 94% dos resultados do teste são falsos. Quem trabalha na área sabe: nada mais longe da verdade.

“Os testes de PCR, em geral, são os mais específicos e normalmente são os confirmatórios para a maioria das doenças”, afirma o microbiologista Eduardo Ruback dos Santos, pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz-Ceará e coordenador técnico de biologia molecular da Unidade de Apoio ao Diagnóstico da COVID-19 no mesmo estado. “Na COVID-19, o PCR é o padrão ouro para determinar se a pessoa está na fase aguda da doença”.

Para realização do teste, é colhida uma amostra das mucosas do paciente – geralmente, pelo nariz. Em seguida, no laboratório, faz-se uma pesquisa por trechos do material genético do coronavírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19 (saiba mais sobre o funcionamento do teste). “Temos testes que PCR que podem determinar até três partes diferentes do SARS-CoV-2 de uma só vez, logo, a chance de não se detectar o vírus, mesmo que ele tenha sofrido mutação, é quase nula”, completa Santos, que chega a realizar 120 mil testes de PCR por mês.

Existem outros métodos capazes de observar a presença do vírus nos pacientes, como um teste rápido para detecção direta do antígeno viral – no caso, uma proteína da camada externa do vírus. Embora seja rápido e sensível, o teste não é tão específico quanto o PCR. “Em caso positivo, é recomendado que se confirme o resultado com o PCR”, ressalta o especialista. Além disso, há exames de sangue capazes de detectar a presença de anticorpos de fase aguda contra o SARS-CoV-2. Da mesma forma, seus resultados precisam ser confirmados pelo PCR.

Entre todos os testes disponíveis, o PCR é aquele que tem menor chance de ter um resulltado falso positivo – sua especificidade é maior ou igual a 99%. Desde o início da pandemia, há um esforço de aperfeiçoar os testes de PCR, de modo a aumentar sua confiança, inclusive diante das novas variantes do coronavírus. “Normalmente, a cada produção destes testes, uma nova versão, mais otimizada, é incluída”, aponta Santos. “Temos, hoje, testes chamados Multiplex, que permitem diferenciar mais de uma doença no mesmo PCR, como, por exemplo, o teste SARS-CoV-2/InfluenzaAB, que permite diferenciar se a pessoa está infectada com COVID-19 ou gripe”.


Estabelecimento de prioridades é estratégia para lidar com o suprimento limitado de doses; no futuro, o ideal é ter pelo menos 60% a 70% da população vacinada.

Enquanto os estados brasileiros iniciam a vacinação contra a COVID-19 de idosos, profissionais de saúde e outros grupos prioritários, as redes sociais continuam servindo de palco para debates e desinformação promovida por grupos antivacinação. Recentemente, voltou a circular no Twitter uma fala atribuída a um especialista britânico para quem seria desnecessário vacinar toda a população, bastando imunizar os grupos de risco para as formas graves da doença. Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a médica Isabella Ballalai discorda: “A ideia de que pessoas saudáveis não precisam tomar vacina é um mito antigo, que não nasceu com a COVID-19. De maneira nenhuma é uma realidade. Pessoas saudáveis são aquelas que mais contraem as doenças infecciosas. Elas são a maioria dos casos de sarampo, influenza e tantas outras doenças infecciosas que podem ser prevenidas por vacina”.

Ballalai explica que, obviamente, ser saudável é muito importante. Hábitos como alimentação equilibrada e prática de exercícios físicos fortalecem o organismo. Pessoas saudáveis, quando infectadas por vírus e outros agentes infecciosos, têm uma chance menor de adoecer gravemente. Mas não estão menos sujeitas a se infectar. E a especialista enfatiza: pessoas saudáveis também não estão livres de morrer de qualquer doença infecciosa, incluindo a COVID-19.

Na prática, a vacinação contra a nova doença começou por grupos específicos devido à falta de doses disponíveis para uma campanha mais ampla. Em quase todos os países, incluindo o Brasil, priorizou-se idosos e profissionais de saúde, dois dos grupos mais impactados pela COVID-19.

“O objetivo principal, neste momento, é diminuir o número de casos graves, hospitalizações e mortes por COVID-19”, ressalta Ballalai. “É muito difícil definir grupos [prioritários para vacinação], mas é preciso defini-los de uma forma científica, baseada em dados e não apenas na percepção de risco”, completa a médica, explicando que as estratégias de imunização estão baseadas em dados de mortalidade e hospitalização por COVID-19 e lembrando que, além de estarem entre os mais afetados pela doença, os profissionais de saúde são também essenciais para o enfrentamento da pandemia.

Outros grupos, como os indígenas, são considerados prioritários não tanto pelo risco de desenvolver formas graves da doença, mas pela dificuldade que têm no acesso aos serviços de saúde, o que acaba gerando um aumento de mortalidade. Segundo Ballalai, pessoas com comorbidades, ou seja, com doenças crônicas, que também estão entre as que mais morrem de COVID-19 no Brasil e no mundo, devem ser o próximo grupo a receber imunização, seguidas dos profissionais que mais circulam na sociedade e, portanto, têm maior exposição ao vírus.

Mas o estabelecimento de prioridades não significa, de forma nenhuma, que é desnecessário promover a vacinação ampla da população. “Havendo vacina, é certamente muito importante vacinar toda a população e conseguir uma cobertura vacinal de, no mínimo, 60% a 70%, para começarmos a ver um resultado importante da vacinação que é a proteção coletiva, com diminuição da circulação do vírus”, argumenta a vice-presidente da SBIm.

O Programa Nacional de Imunizações estabelece públicos específicos para algumas vacinas, como a de gripe (influenza), voltada a crianças pequenas, idosos, gestantes e outros grupos. Embora a vacina contra a gripe, disponível há vários anos, seja recomendada para todos, a estratégia prioritária, do ponto de vista da saúde pública e considerando as limitações de recursos, é reduzir as hospitalizações e mortes. “Já com a COVID-19, temos um cenário dramático de uma doença grave, que já matou mais de 270 mil pessoas só no Brasil. A gente precisa, diante dessa pandemia, buscar controlar esse vírus para poder voltar circular – voltar, como dizem, ao nosso normal”, conclui Ballalai.


Efeitos colaterais, rapidez no desenvolvimento dos imunizantes e necessidade de máscaras e distanciamento social após a vacinação têm gerado controvérsia nas redes sociais.

Há vários meses, as vacinas contra a COVID-19 vêm sendo alvo de fake news e boatos nas redes sociais. Aqui mesmo, na iniciativa COVID-19 DivulgAção Científica, já abordamos, por exemplo, que vacinas de RNA não alteram o genoma humano, que as vacinas não contêm células de fetos abortados e por que as grávidas ainda não estão recebendo vacinas contra COVID-19. Ainda assim, com o início da vacinação nas diferentes regiões do Brasil, o tema continua sendo debatido intensamente. Convidamos quatro especialistas para comentar três mitos sobre as vacinas contra a COVID-19: Flávio Guimarães da Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais; Carlos Zárate-Bladés, imunologista do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina; Gerusa Maria Figueiredo, epidemiologista e infectologista do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo; e Beatriz Carniel, bióloga e doutora em medicina tropical – as duas últimas são membros da iniciativa multidisciplinar Ação COVID-19. Confira, abaixo, o que eles nos disseram.

MITO 1: As vacinas contra COVID-19 foram desenvolvidas muito rapidamente, por isso, não sabemos ainda se elas são seguras.

É fato que as vacinas contra COVID-19 foram desenvolvidas em tempo recorde. Mas isso não significa que houve negligência nas etapas de desenvolvimento, e sim que houve um grande esforço para criar esses imunizantes, com recursos financeiros e humanos que permitiram isso. “A pesquisa científica é, em geral, limitada pela quantidade de recursos alocados e pela quantidade de cientistas empenhados no tema”, argumenta Carniel. “Em 2020, o mundo inteiro estava focado em fazer uma vacina contra COVID-19. Foram muitos recursos e muitos grupos de cientistas investidos no mesmo objetivo”. Figueiredo reforça o coro, afirmando que “situações excepcionais exigem esforços excepcionais”, e lembra que houve grande apoio não apenas da comunidade científica, mas também da população que se voluntariou para os ensaios clínicos.

Foi uma absoluta necessidade”, ressalta Fonseca. “Não podemos, no meio de uma pandemia, esperar cinco anos para ter uma vacina. Imagine a quantidade de mortes que isso causaria no mundo inteiro!” As vacinas se baseiam em estudos, produtos e processos que já existiam ou tinham se iniciado antes mesmo da pandemia. Além disso,o pesquisador acredita que avanços tecnológicos recentes permitiram acelerar o desenvolvimento de novos imunizantes, de um modo que não era possível algumas décadas atrás. Para Zárate-Bladés, os resultados dos ensaios clínicos realizados, somados ao fato de que milhões de pessoas já foram vacinadas em vários países ao longo dos últimos meses, nos tranquilizam sobre a segurança desses novos produtos.

MITO 2: Vacinas contra COVID-19 causam mortes e efeitos colaterais graves.

Não é isso o que mostram os resultados dos ensaios clínicos das vacinas contra COVID-19 cujo uso emergencial já foi autorizado pelas agências reguladoras. Aliás, um dos principais objetivos dos ensaios clínicos é garantir a segurança das vacinas antes que sejam aplicadas em larga escala. “Toda vacina – inclusive aquelas que já tomamos hoje pelo calendário nacional de imunização, como pólio e febre amarela – pode ter efeitos adversos, mas a maioria dos efeitos adversos é branda, como dor no local de aplicação ou febrícola. Esses também são os sintomas observados em pacientes após a vacina da COVID-19”, esclarece Fonseca.

Zárate-Bladés pontua que efeitos adversos graves e óbitos em decorrência de vacinas em geral são extremamente raros e têm duas causas principais. A primeira é o uso de agentes patogênicos atenuados em algumas vacinas – não é o caso dos imunizantes contra COVID-19 já autorizados para uso no Brasil. A segunda se refere a reações alérgicas graves, chamadas reações anafiláticas, a algum componente da vacina. No caso das vacinas contra a COVID-19, por exemplo, nos Estados Unidos, a vacina de Oxford/AstraZeneca, em um milhão de vacinados, levou a cinco reações anafiláticas, e nenhuma delas foi a óbito. A vacina da Pfizer levou a três reações em um milhão de vacinados”, diz, sublinhando que trata-se de números muito baixos de reações diante do número total de vacinados.

Para Carniel, é importante lembrar que as pessoas vacinadas até agora são parte de grupos prioritários, como idosos, e, embora tenha havido óbitos entre os vacinados, as mortes não estiveram relacionadas à vacinação. Figueiredo acrescenta, ainda, que as primeiras etapas da vacinação no Brasil estão ocorrendo de forma concomitante a um agravamento da pandemia no país. Por isso, há casos em que pessoas recém-vacinadas foram acometidas pelo novo coronavírus antes de receber a segunda dose da vacina, por exemplo.

MITO 3: Se, mesmo após a vacinação, continuamos precisando de máscaras e distanciamento social, é porque a vacina não funciona de verdade.

Para rebater esse mito, Figueiredo propõe olhar para o objetivo dos ensaios clínicos das vacinas contra COVID-10. “A pergunta que queríamos responder era se o produto protegia as pessoas da doença nos seus diferentes graus de gravidade, e não se diminuía a transmissão”, explica, lembrando que a preocupação maior, neste momento, é evitar casos severos de COVID-19, que requerem internação hospitalar e podem levar à morte.

Embora os dados mostrem que a vacinação contra COVID-19 reduz a ocorrência de casos graves e óbitos, as vacinas atualmente em uso não são 100% eficazes para impedir a infecção. Há indícios de que pessoas vacinadas podem se infectar – ainda que não desenvolvam sintomas – e, potencialmente, transmitir o vírus a outras pessoas. Por isso, o uso de máscaras e o distanciamento social seguem indispensáveis.

“Vale lembrar também que a vacinação, no mundo inteiro, está sendo feita de forma escalonada, ou seja, não é todo mundo que está recebendo a vacina ao mesmo tempo. Então, a manutenção do uso de máscaras e do distanciamento social visa proteger os grupos que vão ser vacinados mais tardiamente”, ressalta Fonseca. Zárate-Bladés completa: “Esperamos que, quando chegarmos a 70% ou 80% da população vacinada, já não vamos precisar fazer mais uso das máscaras ou do distanciamento, pois a grande maioria das pessoas já estará apta a combater o vírus e não desenvolver doença grave.”

Por fim, Carniel pontua que, como a imunidade não se desenvolve imediatamente após o recebimento da vacina, há o risco de as pessoas vacinadas serem contaminadas se entrarem em contato com o vírus poucos dias após a imunização. Além do risco de desenvolver a doença, há o risco de facilitar o surgimento de novas variantes do coronavírus. “A vacina demora 14 dias para fazer um efeito completo e, enquanto isso, o corpo ainda está aprendendo o que é o coronavírus e como se defender dele”, explica. “Se você entrar em contato com o vírus antes de a sua defesa estar completa, o corpo pode conseguir neutralizar a maioria das partículas virais, mas sobram as mais resistentes à vacina. E esses vírus podem começar a se replicar e se espalhar por aí, gerando novas variantes”.


Equipamento é seguro e uma das principais estratégias de prevenção contra a COVID-19 a partir dos dois anos de idade.

Assim como para a população adulta, também para as crianças o uso de máscaras, a higiene das mãos e o distanciamento social são as principais estratégias de prevenção da COVID-19, e devem ser mantidos mesmo após o início da vacinação contra a doença no Brasil. As máscaras, porém, foram alvo de controvérsia após o presidente Jair Bolsonaro afirmar, em uma fala transmitida pela internet no dia 25 de fevereiro (especificamente, no trecho partir de 12:40 minutos), a existência de um estudo alemão que apontaria possíveis prejuízos às crianças.

No dia 28 de fevereiro, dezenas de sociedades médicas do Brasil, incluindo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), divulgaram um manifesto em defesa do uso de máscaras “não apenas por profissionais da saúde no cuidado de indivíduos ou diagnoóstico de COVID-19, mas por todos”, como uma das medidas de contenção da pandemia. O texto não menciona crianças.

Em maio de 2020, a SBP já havia publicado uma nota sobre o uso de máscaras em crianças e adolescentes durante a pandemia. O documento recomenda o uso de máscaras a partir dos dois anos. Organizações internacionais ligadas à saúde e à pediatria também já se manifestaram a favor do uso de máscaras pelas crianças – alguns exemplos são a Organização Mundial da Saúde, o Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e a Sociedade Pediátrica Italiana, que, inclusive, alertou para a existência de fake news sobre o tema.

“Não há nenhuma dúvida de que crianças podem e devem ser incentivadas a usar máscaras”, reforça o infectologista pediátrico Marcio Nehab, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e consultor da SBI. “Como as crianças ainda não têm previsão de tomar vacina contra COVID-19, as únicas formas que elas têm de se proteger são usar máscara, lavar as mãos e manter distanciamento social”.

Orientações às crianças

Para Nehab, é impossível forçar crianças pequenas a usarem máscaras. Por isso, a saída é orientá-las sobre o tema, dentro de casa: “Os pais podem, por exemplo, treinar o uso de máscara em casa, antes de mandar as crianças de volta à escola”, sugere, ressaltando a importância de explicar às crianças o que é a COVID-19 e como as máscaras podem ajudar a evitar novos casos da doença. Também recomenda conversar com as crianças sobre como, mesmo não estando no grupo de risco para as formas graves da COVID-19, elas podem participar de sua transmissão.  “É uma questão de prática, incentivo e educação”, resume.

Entre os cuidados a tomar com as máscaras usadas pelas crianças, um dos principais é garantir que estejam bem ajustadas ao rosto, cobrindo nariz, boca e queixo. Além disso, as máscaras precisam ser trocadas sempre que ficarem úmidas – em geral, isso acontece com maior frequência nas crianças do que entre os adultos. Assim, é fundamental que as crianças, em especial as mais novas, tenham sempre consigo máscaras extras.

Vale, também, explicar às crianças que a máscara precisa ser usada o tempo inteiro – não se deve tirá-la para falar, nem para espirrar ou tossir. Nos momentos em que a criança está se alimentando, ao tirar a máscara, é preciso redobrar os cuidados com a higiene das mãos e o distanciamento social.

Se, com o uso prolongado de máscaras, a criança sentir incômodo atrás da orelha, uma solução é procurar máscaras que são amarradas na parte de trás da cabeça. O uso de escudo facial não substitui o uso de máscara.

Por causa do risco de sufocamento, não é indicado o uso de máscaras por crianças abaixo dos dois anos, que têm menos autonomia para colocá-las e retirá-las. Em crianças com problemas de desenvolvimento neurológico, doenças respiratórias graves e outras condições crônicas, é importante avaliar caso a caso a viabilidade do uso de máscara, tendo em conta que crianças que não usam máscaras têm um risco maior de contrair COVID-19.


Mutações e surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2, vírus causador da COVID-19, são fenômenos naturais. A única forma de evitá-las é a imunização em massa da população, por meio da vacinação.

Todo vírus que circula em hospedeiros, sejam eles humanos ou não, sofre mutações em seu material genético – as mutações nada mais são que erros durante a multiplicação do vírus, gerando descendentes ligeiramente modificados. Boa parte desses erros não dá em nada e acaba sumindo naturalmente. Outras mutações aumentam a capacidade de o vírus ser transmitido de pessoa para pessoa, o que acaba fazendo com que vírus que carregam essas mutações – as chamadas novas variantes – se tornem mais comuns.  É exatamente isso o que acontece com o SARS-CoV-2, coronavírus causador da COVID-19, que já infectou mais de 111,5 milhões de pessoas ao redor do mundo.

Nos últimos dias, circula no Twitter uma postagem enganosa segundo a qual “a cepa de coronavírus de 2ª e 3ª ondas foi artificialmente projetada”. Não há, na literatura científica, indícios de que isso seja real.

Mutações são um fenômeno muito comum entre os vírus – na verdade, qualquer organismo pode, na hora de gerar um descendente, cometer erros genéticos. Portanto, não há motivos para acreditar que as novas variantes do SARS-CoV-2 tenham sido criadas intencionalmente. “É um fenômeno natural que acontece durante a replicação viral”, afirma a geneticista Ana Tereza de Vasconcelos, do Laboratório Nacional de Computação Científica. “As mutações ocorrem o tempo inteiro e existem, inclusive, mecanismos naturais de correção dessas mutações. Mas algumas mutações passam despercebidas por esse sistema de correção e seguem se perpetuando. À medida em que há mais gente circulando, pessoas tendo contato umas com as outras, esses vírus com mutações vão se tornando mais comuns na população”.

Ela explica que boa parte das mutações já observadas no SARS-CoV-2 tem relação com a proteína Spike, a região do vírus que se liga às células humanas. “Observamos mutações nessa área específica, o que mostra que o vírus está tentando ‘escapar’ do sistema imunológico de seu hospedeiro, o ser humano”, avalia.

Importância da vacinação

Sobre a relação entre novas cepas ou variantes e a segunda e a terceira ondas de infecções pelo SARS-CoV-2, a especialista diz que, no Brasil, não faz nem sentido pensar nas famosas “ondas” da COVID-19. Se, em alguns países, é possível visualizar claramente picos de infecções pelo SARS-CoV-2 em determinados períodos do último ano, seguidos por queda nos números (o que gera gráficos com imagens como ondas que sobem e descem), no Brasil, não foi assim que a doença se comportou.

“Na Europa, após o verão, as medidas de distanciamento foram relaxadas e houve, em seguida, um aumento no número de casos de COVID-19, pois o vírus voltou a circular livremente entre as pessoas que pararam de fazer o isolamento”, esclarece Vasconcelos. “No caso da Inglaterra, foi possível associar o aumento dos casos ao surgimento da mutação B.1.1.7. Sabe-se hoje, segundo estudos epidemiológicos e estatísticos, que essa nova linhagem tem uma capacidade de transmissão 50% superior”. No caso do Brasil, explica a pesquisadora, como não houve medidas adequadas e amplas de distanciamento social, não é possível distinguir entre primeira, segunda e terceira ondas. Mais de 10 milhões de casos já foram registrados.

Quanto mais o vírus circula e se multiplica, maior a chance de que ele sofra mutações e gere novas variantes. Algumas delas poderão ser especialmente nocivas ao ser humano. Nossa melhor aposta para evitar novas variantes do SARS-CoV-2 é, portanto, fazer com que o vírus deixe de circular com tanta intensidade. “Por isso, é superimportante que a população esteja vacinada”, conclui a especialista. A prática do distanciamento social, assim como o uso de máscaras, também são formas de frear a circulação do vírus na população.


Conhecida desde a década de 1960, a família viral conhecida como coronavírus nunca tinha causado tanta comoção. Entenda por que, no último ano, ela mudou nosso dia a dia de maneira tão drástica.

Já ultrapassamos um ano de pandemia da COVID-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, e podemos dizer que ela impactou a vida de todos de uma maneira que seria impensável pouco mais de um ano atrás – cancelar o carnaval certamente não estava nos planos dos brasileiros para fevereiro nenhum. Talvez muita gente não saiba que vírus dessa mesma família circulam no mundo há décadas, causando doenças leves como o resfriado comum. Por que, então, este coronavírus, diferentemente de outros 20 já conhecidos, parou o mundo?

Segundo a virologista Giliane de Souza Trindade, da Universidade Federal de Minas Gerais, a resposta está em uma combinação de fatores: o fato de o SARS-CoV-2 gerar doença em humanos – dos 20 coronavírus patogênicos descritos antes da COVID-19, 14 infectam apenas animais –, o fato de ele causar doença grave e morte em uma pequena parcela de infectados e sua altíssima transmissibilidade.

De resfriados a doenças fatais

Descobertos na década de 1960, os coronavírus têm uma aparência peculiar: o material genético em seu núcleo está protegido por um envelope de gordura do qual saem protuberâncias semelhantes a “espinhos” – na verdade, proteínas. Ao observar essas protuberâncias ao microscópio, os cientistas compararam-nas ao aspecto da corona solar – daí o nome coronavírus.

Na natureza, os coronavírus infectam principalmente aves – como galinhas e papagaios – e mamíferos, incluindo porcos, gatos, cachorros, cavalos, camelos, bois, roedores, morcegos e até belugas, uma espécie de cetáceo marinho conhecido como baleia-branca. Entre seres humanos, circulam seis tipos de coronavírus, associados, em geral, a infecções respiratórias brandas. Eles causam, por exemplo, entre 20% e 30% dos resfriados comuns. Mas há três preocupantes exceções: coronavírus que infectam o trato respiratório inferior, criando doenças graves.

No início dos anos 2000, o mundo viu emergir um coronavírus que causava síndrome respiratória severa aguda (SARS, na sigla em inglês) e que recebeu o nome SARS-CoV. A doença gerou epidemia, atingindo vários países e causando cerca de 8 mil casos e 774 mortes em 2003. Já em 2012, foram registrados os primeiros casos da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês), causada por outro coronavírus, MERS-CoV. Desde então, há notícia de 858 mortes pela doença.

Os números parecem muito pequenos perto do que vivemos hoje com a pandemia de COVID-19: até agora, já foram mais de 108,5 milhões de casos registrados no mundo, com pelo menos 2,4 milhões de mortes associadas. “Apesar de o SARS-CoV-2 ser menos letal do que o SARS-CoV, cuja letalidade é cerca de 10%, e do que o MERS-CoV, com letalidade acima de 30%, o novo coronavírus é muito mais transmissível. Por isso, está causando muito mais mortes”, alerta Trindade.

Na SARS e na MERS, explica a pesquisadora, a maior parte dos contágios acontecia apenas depois de os pacientes se tornarem sintomáticos e, pela gravidade das doenças, muitos eram hospitalizados. Assim, sua movimentação ficava restrita – e, consequentemente, havia menos chance de transmitirem a infecção a outras pessoas. Já na COVID-19, há pessoas que desenvolvem forma branda da doença, e também pessoas que não apresentam sintoma algum depois de infectadas pelo vírus, mas ainda assim o transmitem a terceiros. “Por isso batemos tanto na tecla de que o distanciamento social é uma das medidas mais efetivas que temos para enfrentar a pandemia, junto com o uso de máscaras”, defende a virologista.

Vigilância e educação

Historicamente, todos os coronavírus que conhecemos e que causam doenças em humanos infectaram, primeiro, animais. Em alguns casos, a infecção deixa os animais doentes e pode ser letal, em outros, a doença é leve ou assintomática. O que faz com que um vírus de animais passe a infectar seres humanos é difícil prever, mas tem relação com o contato estreito do homem as espécies domésticas e silvestres – por exemplo, pelo consumo de carne de caça.

“Ao longo da nossa existência como sociedade, fomos incrementando cada vez mais o contato com a vida animal, seja pela criação de animais domésticos, seja pela degradação ambiental que promove desequilíbrio ecológico e aumenta o contato de espécies silvestres com populações humanas”, argumenta Trindade. Por isso, ela defende que promover educação ambiental e sanitária é um dos caminhos pelos quais podemos tentar reduzir as chances de que novos vírus de animais passem a infectar humanos.

Outra forma de evitar novas pandemias é estarmos atentos aos vírus que circulam em animais, para nos prepararmos com mais antecedência em relação ao que pode acontecer caso “saltem” para a espécie humana – é a chamada vigilância genômica. “Por exemplo, sabemos da importância dos morcegos e dos roedores para a transmissão de novos vírus a humanos. Então, precisamos conhecer bem os vírus que estão circulando nesses animais, estudando seu genoma e comparando-o aos vírus que já conhecemos”, esclarece a especialista.

Imunizante contra a COVID-19 aprovado para uso emergencial no Brasil pela Anvisa também foi aprovado por pelo menos outras 19 autoridades regulatórias internacionais.

Notícias de que a Alemanha e outros países europeus não recomendariam a aplicação da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca em idosos geraram insegurança nas últimas semanas. Esta é uma das duas vacinas já disponíveis no Brasil para imunização contra a COVID-19, e os idosos estão entre os grupos prioritários para recebê-la. Tanto a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), responsável pela produção da vacina de Oxford no Brasil, quanto a coordenadora dos ensaios clínicos deste imunizante no país, Sue Ann Costa Clemens, esclarecem que há evidências de segurança para o uso da vacina na faixa etária acima dos 65 anos, o que levou à aprovação do uso emergencial do imunizante por diferentes autoridades regulatórias.

“De acordo com os resultados dos ensaios clínicos de fase 3, não há contra-indicações para imunização de idosos com a vacina Oxford/AstraZeneca”, afirmou a Fiocruz em nota. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso emergencial do imunizante no dia 17 de janeiro, para todas as pessoas com 18 anos ou mais, sem limite superior de idade. A agência regulatória europeia, European Medicines Agency (EMA), também aprovou e recomendou o uso da vacina no bloco de países da Europa, incluindo a Alemanha, sem restrição quanto à aplicação em idosos. “Entretanto, os países podem recomendar e adotar localmente diferentes estratégias de imunização, de acordo com a disponibilidade de outras vacinas, presença de variantes, faixas etárias etc.”, pontua Clemens.

A coordenadora dos ensaios clínicos da vacina Oxford/AstraZeneca no Brasil esclarece, também, que pelo menos outros 18 países já aprovaram o uso emergencial do imunizante em adultos e idosos. A vacinação em massa já foi iniciada em alguns deles, como Índia e Marrocos, além de Reino Unido e Brasil. “Mais de 8 milhões de pessoas ja receberam a vacina sem eventos adversos graves ou inesperados”, destaca, sublinhando que, no Reino Unido, como em outros países, os idosos são grupo prioritário de vacinação contra COVID-19.

Ontem (10 de fevereiro), a Organização Mundial da Saúde (OMS) também emitiu parecer sobre a vacina Oxford/AstraZeneca, reconhecendo sua eficácia e segurança e recomendando o uso em adultos a partir dos 18 anos, incluindo idosos. 

Evidências de segurança e imunogenicidade

Dados obtidos nos ensaios clínicos da vacina Oxford/AstraZeneca foram publicados na revista científica The Lancet em 18 de novembro. No estudo, com 560 participantes, o produto gerou imunogenicidade – isto é, produção de anticorpos neutralizantes contra o vírus – semelhante em todas as faixas etárias contempladas no ensaio. A pesquisa não incluiu crianças nem adolescentes. Em 8 de dezembro, um novo artigo, publicado na mesma revista, apresentou dados de ensaios clínicos com milhares de participantes.

“Os resultados dos estudos de fase clínica da vacina Oxford/AstraZeneca foram bastante promissores e positivos, e esses resultados subsidiaram o registro e o licenciamento para uso emergencial da vacina no Reino Unido e, também, no Brasil”, lembra a infectologista Cristiana Toscano, membro do Comitê de Vacinas Covid da OMS e do Comitê de Acompanhamento de Vacinas para a Covid-19 da Fiocruz. “Estudos de fase 2 demonstraram uma imunogenicidade de 100% em grupos de idosos”.

Os ensaios clínicos da vacina Oxford/AstraZeneca ainda estão em andamento e, em breve, deverão ser publicados novos resultados. Por cautela, os idosos foram incluídos nos ensaios clínicos mais tardiamente – como é de praxe –, o que explica por que o número de participantes dessa faixa etária incluídos nas análises ainda é pequeno. “Mas isso não invalida as evidências já obtidas de segurança e de imunogenicidade”, ressalta Toscano.

Clemens pontua que os dados já publicados incluem mais de 4 mil voluntários acima dos 56 anos. Ela conta que, no Brasil, a partir de outubro de 2020, cerca de 1.900 pessoas com 60 anos ou mais participaram da pesquisa, e que dados de idosos ainda estão sendo coletados no Brasil, no Reino Unido e em países da África. A especialista revela, também, que há um estudo internacional em andamento com mais de 30 mil voluntários idosos nos Estados Unidos, no Chile e no Peru. A expectativa é que os dados gerados por essas e outras pesquisas permitam a solicitação do registro definitivo da vacina Oxford/Astrazeneca.

“É importante ressaltar que as vacinas tiveram aprovação de uso emergencial, e não registro”, esclarece Clemens. “No momento, todos os desenvolvedores de vacinas prosseguem seus testes clínicos e os testes da vacina de Oxford não são exceção. Isso é importante, pois estamos em uma pandemia e novas informações podem ser obtidas”.

Estudos que sugerem eficácia da substância contra o novo coronavírus são frágeis; não há evidências para suportar o uso do medicamento no contexto da pandemia.

Vira e mexe, as redes sociais voltam a compartilhar “soluções” para a pandemia de COVID-19. Eventualmente, as postagens são motivadas por estudos científicos, porém extrapolam suas conclusões e frequentemente ignoram as ressalvas feitas pelos próprios autores dos trabalhos. É o caso de um pré-print (isto é, um trabalho ainda não revisado por pares) divulgado na plataforma Research Square por um grupo internacional de pesquisadores, ao qual atribui-se a conclusão de que a ivermectina seria 75% eficaz na redução das mortes por COVID-19.

Logo na primeira página, lê-se, em letras vermelhas, que “pré-prints são relatórios preliminares que não passaram por revisão por pares. Eles não devem ser considerados conclusivos, usados para informar práticas clínicas ou referenciados pela mídia como informação validada”. No artigo em questão – uma análise de 18 ensaios clínicos que buscaram investigar a eficácia da ivermectina contra a COVID-19 –, os autores ressalvam que boa parte dos estudos incluídos na análise não foram publicados ainda, e que as características desses estudos (por exemplo, a dosagem ou a duração do tratamento) são heterogêneas, o que dificulta a comparação de seus resultados. Eles também sugerem que, antes de solicitar às autoridades regulatórias a aprovação da ivermectina como tratamento para a COVID-19, é necessário realizar ensaios clínicos maiores e mais robustos.

“Os autores foram bastante honestos, pois deixaram claro que não há homogeneidade nos estudos incluídos na análise e, também, que a maioria desses estudos é de baixa qualidade”, avalia a farmacêutica Claudia Garcia Serpa Osorio de Castro, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. “Portanto, seria leviano fazer qualquer afirmação a favor ou contra a ivermectina a partir dessa análise”. A conclusão, embora frustrante, é clara: não existem evidências de qualidade que justifiquem o uso da ivermectina como tratamento de pacientes com COVID-19.

Reposicionamento de medicamentos

Desde o início da pandemia, a comunidade científica busca tratamentos capazes de curar a COVID-19 ou, pelo menos, reduzir a necessidade de internação ou a morte de pacientes. Um dos caminhos para isso é avaliar se alguma droga já existente é capaz de tratar a infecção causada pelo novo coronavírus.

Com essa motivação, pesquisadores testaram se a ivermectina era capaz de inibir a replicação do novo coronavírus em células cultivadas em laboratório. Embora os resultados tenham sido positivos, entre a bancada de laboratório e o organismo humano há uma grande distância, e o que funciona em um contexto pode não funcionar no outro. Por exemplo, se, em laboratório, podemos testar doses altas da ivermectina, em pessoas, é preciso se certificar de que a dosagem não seja tóxica ao organismo, causando efeitos colaterais sérios.

O fato de a ivermectina ser aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para tratamento de sarna, piolho, oncocercose e filariose não é garantia de que o medicamento funcione contra outras doenças, como a COVID-19. “A aprovação da Anvisa, isto é, o registro sanitário, pressupõe uma indicação clínica. Quando se submete à Anvisa o pedido de aprovação de uma droga, se apresenta os resultados de testes realizados para aquela substância com uma indicação clínica específica”, explica Castro. Antes de pedir à Anvisa que aprove o reposicionamento de uma droga, ou seja, seu uso em outro contexto, é preciso realizar novos testes e obter evidências robustas de eficácia.

Baixa probabilidade

Há meses, diferentes grupos de pesquisa vêm avaliando o uso da ivermectina contra o novo coronavírus. Na plataforma ClinicalTrials.com, que registra ensaios clínicos em andamento, há mais de 50 estudos com esse objetivo – alguns já concluídos, outros em andamento ou iniciando o recrutamento de pacientes. “No Brasil, só com ivermectina, há pelo menos nove estudos registrados no Conselho Nacional de Ética em Pesquisa”, destaca a pesquisadora. “Também há mais de 20 estudos de reposicionamento de outras drogas. As pesquisas estão em andamento. Mas, antes de ter resultados robustos, não podemos recomendar o uso dessas substâncias”.

Para Castro, o fato de já haver tantas pesquisas com ivermectina sem dados conclusivos é um indicativo de que a substância tem baixa probabilidade de ser um bom tratamento para a COVID-19. A especialista ressalta, também, a importância de se avaliar a qualidade dos estudos, usando parâmetros como a quantidade de pacientes incluídos e a reprodutibilidade dos resultados.

Ainda, propõe uma reflexão sobre a ética das pesquisas com possíveis tratamentos contra a COVID-19. Cita, para tal, o exemplo da cloroquina, outro medicamento testado contra a doença. Depois de vários estudos realizados, não há evidências que comprovem sua eficácia. “É hora de abandonar [o medicamento] e passar para o próximo da fila, não vale mais o investimento. Não há justificativa para submeter os voluntários de pesquisa a uma situação assim”, pondera Castro.

A especialista critica o chamado “kit COVID”, conjunto de medicamentos sem comprovação distribuídos para tratamento da COVID-19, e diz que não há nem mesmo justificativa para o chamado uso off label da ivermectina ou de outros medicamentos. “Às vezes, o uso de uma droga contra determinada doença ainda não está registrado pela agência reguladora, mas existem evidências na literatura científica e o médico assume o risco de utilizá-la mesmo assim. No caso de tratamentos contra a COVID-19, não existem evidências. E, se não há eficácia comprovada, a única coisa que resta é a insegurança”.