Categoria: Fato x fake

Combinação de medicamentos conhecida como ‘kit COVID’ não tem eficácia comprovada e desvia a atenção das medidas que realmente podem frear a pandemia: vacinação, distanciamento social, uso de máscaras e higiene das mãos.

Cloroquina ou hidroxicloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina, vitamina D, zinco. Esses são alguns dos medicamentos distribuídos a pacientes diagnosticados com a COVID-19 – um suposto tratamento precoce contra a doença. O coquetel, que é chamado por muitos de “kit COVID”, não tem eficácia comprovada e, portanto, sua prescrição não pode ser considerada uma medida de saúde pública para controlar a pandemia. Segundo especialistas, o principal risco associado ao mito do tratamento precoce é desviar a atenção do fato de que a COVID-19 pode causar casos graves e mortes e, portanto, devemos tomar medidas capazes de evitar sua transmissão.

Recentemente, diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reafirmaram, repetidas vezes, que não existe tratamento precoce contra a COVID-19. Ainda assim, o tema parece não sumir das redes sociais ou mesmo das medidas tomadas por governantes brasileiros.

No primeiro semestre de 2020, a aposta na cloroquina e na hidroxicloroquina – medicamentos usados para tratar malária e algumas doenças autoimunes – contra a COVID-19 gerou repercussão mundial e foi extensamente estudada em diversos países. Em outubro, a Organização Mundial de Saúde apresentou resultados de pesquisa segundo a qual a hidroxicloroquina, entre outros medicamentos, não teve efeito sobre a mortalidade, a necessidade de ventilação mecânica ou a duração da internação de pacientes com a doença. A recomendação de uso acabou perdendo força em países como os Estados Unidos, mas permaneceu frequente por aqui.

Outros medicamentos, como a ivermectina e a nitazoxanida, não tiveram tanta repercussão global, e seu uso parece estar restrito a poucos países, entre os quais o Brasil. Seus defensores frequentemente justificam-se com base em artigos científicos ainda não revisados por pares, ou cujas conclusões são frágeis. “Para todas essas medicações propostas como tratamentos específicos da COVID-19 (isto é, para combater o vírus), não há evidência confirmatória de eficácia”, destaca o cardiologista Luís Correia, da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, ressaltando que é necessário embasar as condutas médicas em estudos de alta qualidade científica, isto é, confiáveis, com baixo risco de viés e erros aleatórios. A existência de um artigo, isoladamente, não é suficiente para justificar o uso das medicações.

O especialista ressalta, ainda, que a polarização criada, no Brasil, em torno do tratamento precoce da COVID-19 acaba, muitas vezes, invertendo a forma como as evidências científicas embasam medidas de saúde pública. “Não cabe à ciência comprovar a ineficácia dos medicamentos. É o contrário: é preciso que uma substância demonstre eficácia para que se recomende o uso. Sem isso, não se pode recomendá-la”.

Riscos associados

Todo medicamento pode causar efeitos colaterais. Portanto, a decisão de usá-lo ou não envolve avaliar se seus benefícios superam os riscos envolvidos. No caso de um tratamento sem benefícios comprovados, sobram apenas os riscos – alguns já conhecidos, relacionados aos efeitos de cada medicamento no organismo humano, e outros imprevistos. Mas não é isso o que mais preocupa os especialistas, e sim a falsa sensação de segurança gerada pela divulgação do “kit COVID”.

“Se acreditarem que existe um tratamento e que estão protegidas caso sejam contaminadas, as pessoas podem se arriscar mais”, avalia a biomédica Ana Paula Herrmann, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Existe o risco de as pessoas acreditarem que existe um tratamento precoce e, por isso, deixarem de usar as medidas não farmacológicas de prevenção”. Distanciamento social, uso de máscaras, higiene das mãos, testagem e rastreamento de casos e, agora, vacinação continuam sendo as melhores estratégias para o controle da pandemia.

A especialista lembra, ainda, dos gastos associados à compra de medicamentos sem eficácia, em especial em grandes quantidades, da exploração política do tema por prefeitos, governadores e instâncias federais e de como isso desvia a atenção pública daquilo que realmente importa. “É uma perda de tempo”, diz. E, lembrando a recente crise no estado do Amazonas, onde os hospitais ficaram sem insumos básicos como cilindros de oxigênio, avalia: “Manaus é um exemplo do que pode acontecer quando a gente insiste na existência do tratamento precoce”.

Relatos pessoais versus evidências científicas

A internet está cheia de relatos de pessoas que fizeram uso de uma ou mais medicações do “kit COVID” e sobreviveram à doença. É importante notar que a maioria das pessoas que desenvolve a COVID-19 vai mesmo sobreviver, ainda que não faça tratamento algum. “A mente humana não está acostumada a pensar no contra-factual (se não tivesse tomado, sobreviveria), sendo especialmente propícia a fazer relações causais com baixo nível de evidência”, observa Correia. Relatos de casos isolados, que não fizeram parte de estudos nem passaram por validação, não podem ser considerados evidência científica para embasar condutas médicas.

Herrmann lembra que a dificuldade de encontrar um tratamento específico é típica de infecções virais agudas, como a dengue, a zika e a própria gripe. Ainda que se encontre uma droga adequada, o tratamento encontra dificuldades. “Dificilmente conseguimos iniciar um tratamento antiviral de maneira suficientemente precoce para impedir a replicação dos vírus”, explica. O que se faz, nesses casos, é tentar controlar os sintomas com medicamentos não específicos, como antitérmicos e analgésicos – que não devem ser administrados indiscriminadamente, mas apenas em caso de febre ou dor, por exemplo.

Os dois especialistas entrevistados para esta matéria defendem a importância de basear condutas médicas e medidas de saúde pública em evidências de alta qualidade científica. “Isso nos permite decisões racionais, com mais benefícios em termos da população e dos indivíduos”, afirma Herrmann. “Se houvesse racionalidade, não estaríamos discutindo a hidroxicloroquina até hoje, e nem mesmo teríamos essas discussões polarizadas com relação à vacina”, completa Correia.


Embora fake news questionem sua utilidade, produto é um aliado na prevenção à COVID-19, assim como água e sabão.

A essa altura da pandemia, já devia estar na ponta da língua de todo mundo: manter distanciamento social, evitar aglomerações, usar máscaras e higienizar frequentemente as mãos são as principais medidas pelas quais qualquer pessoa pode ajudar a frear a COVID-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2. Ainda assim, seguem em alta alguns posts que trazem desinformação sobre estes temas nas redes sociais: já questionaram o distanciamento social, as máscaras e, também, a eficácia do álcool em gel.

O aplicativo parceiro Eu Fiscalizo identificou, no Instagram, uma publicação que cita um suposto estudo da Universidade de Kyoto para afirmar que o álcool em gel “pode ser inútil na proteção contra COVID-19”. Procuramos o químico Adriano Andricopulo, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), campus São Carlos, para esclarecer a questão.

Ele explicou que a ação desinfetante do álcool é bem conhecida cientificamente: o produto atua desestruturando proteínas ou lipídios (gorduras) das camadas externas de agentes infecciosos, como vírus e bactérias. É o que acontece com o novo coronavírus.

O SARS-CoV-2 é formado por material genético (ácido ribonucleico, ou RNA), proteínas e lipídios. Esses últimos são responsáveis por revestir e proteger o material genético viral. Em contato com o álcool, a camada de gordura é rompida, o que inviabiliza o vírus.

Além do álcool

Quando uma pessoa contaminada pelo novo coronavírus toca uma superfície – um corrimão, um carrinho de supermercado, uma mesa, um telefone, uma maçaneta etc. –, pode contaminá-la com o vírus. “Testes para a identificação do SARS-CoV-2 em esfregaços de superfície mostraram que desinfetantes apropriados são eficazes para a sua desinfecção”, conta Andricopulo. Mas, quando estamos incertos sobre se a superfície que tocamos está ou não adequadamente desinfetada, o melhor a fazer é limpar bem as mãos.

“A higiene das mãos é fundamental, porque é exatamente por meio das mãos que ocorre o contato do vírus com o nosso rosto e mucosas, e consequentemente, a contaminação”, ressalta o especialista. Portanto, na dúvida, não dê mole: limpe as mãos com frequência, especialmente quando estiver fora de casa.

O uso dos desinfetantes de superfície nas mãos não é indicado, pois pode causar reações indesejáveis na pele, prejudicando a saúde. Sempre que possível, a limpeza das mãos deve ser feita com água corrente e sabão – que também agem rompendo o revestimento de gordura do SARS-CoV-2. Quando não há uma pia por perto, o álcool em gel dá conta do recado.

Orientações para o uso do álcool em gel

Segundo o químico da USP, não há contraindicações para o uso do álcool gel na higienização das mãos. Embora o uso frequente do produto possa ressecar um pouco a pele – o que pode ser resolvido com aplicação de hidratante –, ele não produz toxicidade sistêmica no organismo humano. Pessoas alérgicas devem procurar álcool gel sem perfume ou cor.

“É importante ficar atento(a) no momento de comprar o álcool em gel nas farmácias ou supermercados, pois o álcool etílico pode ser comercializado com diferentes graduações de fração em massa ou de fração em volume, que são, respectivamente, os graus INPM e GL”, esclarece Andricopulos. “Esta informação aparece nas embalagens dos produtos”. O produto adequado para desinfecção das mãos é o álcool em gel 70 graus GL.

Use a quantidade apropriada para espalhar o álcool em gel por toda a superfície das mãos, até a altura dos punhos. Em seguida, deixe o produto em contato com as mãos até secar, o que leva apenas 15 a 20 segundos. Se for usar hidratante, espere o álcool evaporar primeiro, e só depois aplique o creme. Além disso, tenha em mente que o álcool em gel é um produto inflamável, portanto, quando estiver com as mãos molhadas de álcool, não acenda fósforos ou isqueiros, nem chegue perto do fogo e do fogão. Mantenha o produto longe das chamas.


Entre os vários imunizantes em fase avançada de ensaios clínicos, não há ainda estudos conclusivos sobre a segurança das vacinas durante a gestação.

O Brasil ainda não tem uma vacina aprovada para imunização em massa contra o novo coronavírus, mas os boatos já se espalham: recentemente, mensagens no WhatsApp vêm disseminando que as vacinas farão mal aos fetos cujas mães forem imunizadas durante a gestação. Não há estudos que indiquem efeito prejudicial da aplicação das vacinas contra a COVID-19 em grávidas. Porém, fique de olho: também não há, ainda, estudos que comprovem sua segurança neste grupo.

O motivo é simples: entre as vacinas em estágios mais avançados dos ensaios clínicos, isto é, dos testes em seres humanos, nenhuma incluiu mulheres grávidas entre suas voluntárias. “Nenhuma das três empresas – Pfizer, Moderna e AstraZeneca – inscreveu grávidas ou mulheres que estão amamentando em seus ensaios clínicos”, conta a gerente do Programa de Vacinas Virais de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Elena Caride. “Portanto, atualmente, não há dados suficientes sobre como a vacina afetaria as mulheres grávidas”.

Como consequência, gestantes e lactantes, em um primeiro momento, provavelmente serão excluídas dos grupos que receberão as vacinas.

Gestantes e ensaios clínicos de vacinas

A exclusão das gestantes dos ensaios clínicos para as novas vacinas contra a COVID-19 não é excepcional. De uma forma geral, este é um grupo que fica de fora dos testes iniciais de novos imunizantes e medicamentos – essencialmente, porque, quando uma mulher grávida participa de um teste, seu bebê participa também; logo, são duas vidas em jogo.

Assim, é normal aguardar até a conclusão dos primeiros ensaios clínicos e que se tenha mais certeza da eficácia e segurança de novas vacinas antes de testá-las em mulheres grávidas. Outros grupos que costumam ficar para uma segunda etapa de testes são crianças e imunodeprimidos.

Como saberemos, então, se as novas vacinas são seguras durante a gestação? Entra em ação a farmacovigilância, com o objetivo de descobrir se, entre as voluntárias dos ensaios clínicos, houve gestantes vacinadas inadvertidamente, antes de saberem que estavam grávidas, ou que engravidaram entre uma dose e outra da vacina.

Quando há casos assim – o que geralmente acontece, pois são milhares de mulheres participando dos testes –, as novas gestantes são acompanhadas até o final da gestação, explica a vice-presidente do Instituto de Vacinas Sabin (EUA), Denise Garret. Os bebês recém-nascidos também são observados de perto. “A partir da disponibilização desses dados, são desenhados ensaios clínicos específicos para gestantes”, conta a especialista.

Riscos da COVID-19 durante a gravidez

Com a perspectiva da vacinação um pouco mais distante, gestantes precisam redobrar os cuidados preventivos, como distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos. “A gestante deve ser poupada e se poupar de aglomeração”, defende a infectologista infectologista Raquel Stucchi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ela ressalta, ainda, que publicações científicas recentes indicam que mulheres grávidas que contraem a COVID-19 internam mais do que as não gestantes, ou seja, as grávidas têm quadros mais graves da doença. “Proporcionalmente, elas também precisam mais de internação em unidades de terapia intensiva (UTI) e de ventilação mecânica (respiradores) do que as outras mulheres”, completa. A COVID-19 também está associada ao parto prematuro.


Estudo publicado no mês passado com dados de Wuhan, na China, não muda aquilo que os cientistas já vinham afirmando: mesmo sem sintomas, é possível transmitir a COVID-19.

A publicação, em 20 de novembro, de um estudo com quase 10 milhões de residentes de Wuhan, na China, motivou a circulação de postagens afirmando: pessoas que contraíram o SARS-CoV-2, vírus causador da COVID-19, sem apresentar sintomas não transmitem a infecção a terceiros. Não é isso, porém, o que o trabalho, publicado na revista Nature Communications, conclui.

Wuhan foi o primeiro lugar do mundo onde surgiram casos da COVID-19. Para conter a nova doença, a cidade impôs aos seus residentes uma rigorosa quarentena, de 23 de janeiro a 8 de abril de 2020. Pouco mais de um mês depois, entre 14 de maio e 1 de junho, deu-se a coleta do estudo recém-publicado. Os participantes, que correspondiam a mais de 90% da população da cidade com seis anos de idade ou mais, realizaram testes moleculares (PCR) para identificação do vírus. O estudo não identificou nenhum novo caso sintomático da doença, e 300 pessoas tiveram resultados positivos para a presença do SARS-CoV-2 em seu organismo, sem apresentar sintomas. Não foram identificados novos positivos entre contatos próximos dos casos assintomáticos.

O que podemos concluir a partir desses resultados? “O estudo tira um ‘retrato’ da situação em Wuhan depois da implementação de medidas amplas e rigorosas de testagem, rastreio de contatos e isolamento social”, resume o infectologista Fernando Bozza, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz. “Os resultados mostram que a cadeia de transmissão da COVID-19 foi interrompida pelas medidas adotadas naquela região”.

Apesar de ser um estudo de qualidade e importante para entendermos a dinâmica da doença, o perigo está na interpretação equivocada que algumas fake news fizeram de seus resultados. “É um artigo bem desenhado e bastante abrangente”, avalia o biofísico Rômulo Neris, doutorando em imunologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e bolsista da organização estadunidense Dimension Sciences para o estudo do novo coronavírus. Ele explica que testes em massa são uma forma bastante eficaz de rastrear a doença, mas que os resultados da pesquisa não comprovam que casos assintomáticos não transmitem o vírus: “[o artigo] não é, de maneira nenhuma, um salvo conduto para que pessoas assintomáticas possam não adotar as medidas de proteção ou possam viver como se não estivéssemos atravessando uma pandemia”.

O próprio artigo da Nature Communications alerta: “é cedo demais para ser complacente, por causa da existência de casos positivos assintomáticos e pela alta suscetibilidade nos residentes de Wuhan. Medidas de saúde pública para prevenção e controle da epidemia de COVID-19, incluindo uso de máscaras e manutenção de um distanciamento social seguro, devem ser mantidas”.

Participação dos assintomáticos na transmissão da COVID-19

Bozza chama atenção para os resultados de um outro artigo, publicado na Nature Medicine em 30 de novembro. O estudo avaliou a transmissão do SARS-CoV-2 em outra província chinesa, Wanzhou, por meio do acompanhamento de 183 casos confirmados de COVID-19 e seus contatos mais próximos. A transmissão por pessoas infectadas assintomáticas ou pré-sintomáticas (isto é, que viriam a desenvolver depois os sintomas da doença) correspondeu a 75,6% do total de transmissões.

“Podemos concluir que, de fato, as medidas de contenção e interrupção das cadeias de transmissão (isolamento social, uso de máscara, testagem, busca de contactantes) devem valer, de uma forma geral, para toda a população. Não é porque você é assintomático que não deve usar máscara. Se você teve contato com alguém com COVID-19, mesmo assintomático, deve ser testado”, defende o infectologista.

Embora os cientistas acreditem que pessoas sem sintomas ou com sintomas brandos da COVID-19 tenham uma carga viral mais baixa e, portanto, liberem menos partículas do vírus no ambiente, elas têm um papel muito relevante na transmissão da infecção, pois circulam muito mais, muitas vezes sem a proteção adequada. Quem está muito doente, por outro lado, tende a ficar mais recluso, em casa ou no hospital – assim, apesar da carga viral mais alta, possivelmente transmite menos a doença, porque tem contato com menos pessoas.

Portanto, o estudo em Wuhan não serve como base para mudar as orientações atuais em relação às medidas adequadas para contenção da COVID-19, como distanciamento social e uso de máscaras. “A gente continua considerando que os assintomáticos têm um papel importante na pandemia”, reforça Neris.

Bozza destaca, ainda: “[entre a China e o Brasil], o cenário epidemiológico é muito diferente, e as medidas implementadas para interrupção da transmissão do vírus também foram muito diferentes. Não tem comparação. Esse estudo não ajuda a entender a transmissão da COVID-19 no Brasil, ele ajuda a entender que medidas funcionaram para parar a transmissão em Wuhan”.

Críticas nas redes sociais sugerem que elas não são eficazes; especialistas discordam.

Em vários países, o uso de máscara – especialmente nos lugares fechados e com grande circulação de pessoas, onde não é possível manter distanciamento social – vem sendo recomendado como uma das principais estratégias de combate ao vírus SARS-CoV-2, causador da COVID-19. Por outro lado, postagens nas redes sociais criticam essa medida, ora dizendo que a opção pela máscara deveria ser escolha individual, ora apresentando alguma justificativa com “tom” científico mas pouco embasada – como a ideia, já refutada pelos cientistas, de que máscaras causam diminuição dos níveis de oxigênio no sangue.

Nos últimos dias, circulou no Twitter: “Um grande e extenso estudo dinamarquês sobre o uso de máscaras descobriu que o uso de máscara quase não oferece proteção contra o coronavírus. Este é o melhor estudo científico já feito sobre esta questão”. Fomos conferir – e descobrimos, sem surpresa, que não é bem assim.

Existem dois benefícios possíveis para o uso de máscaras: proteger quem as usa ou funcionar como uma barreira para a dispersão do vírus, evitando que alguém infectado porém assintomático transmita a infecção a terceiros (o que a internet tem chamado de “proteger os outros”). O estudo dinamarquês citado no tweet, publicado na revista Annals of Internal Medicine, teve como objetivo avaliar apenas a primeira opção.

A pesquisa foi realizada em um momento em que a Dinamarca recomendava o distanciamento social, mas não havia recomendações para o uso de máscaras, que eram raramente vistas fora dos ambientes hospitalares. Um grupo de voluntários foi selecionado e metade deles recebeu a orientação de usar máscaras ao sair de casa. Após um mês, 1,8% dos participantes que receberam a orientação haviam sido infectados, contra 2,1% do grupo de controle, que não recebeu a mesma recomendação. A diferença entre os dois grupos foi considerada muito pequena.

Críticas

Enviamos o trabalho a dois especialistas, pedindo uma avaliação, e perguntando se os resultados apresentados no artigo deveriam nos fazer repensar a recomendação de uso de máscaras como parte das estratégias de combate à pandemia.

O infectologista Antonio Bandeira, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, vê no estudo sérios problemas metodológicos e afirma que o trabalho não permite concluir que as máscaras não são eficazes. “Um dos problemas foi não controlar a transmissão intradomiciliar”, aponta. No estudo, os voluntários foram orientados a usar máscaras fora de casa, mas não quando estavam em casa, com seus familiares. E, se os familiares saíam às ruas sem máscaras, poderiam trazer o vírus para dentro de casa.

A pneumologista Patrícia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, também faz críticas à metodologia do estudo. “As pessoas eram encorajadas a usar máscara, mas não ficou clara qual era a forma de controle”, indica, explicando que não se sabe se as máscaras foram, de fato, usadas corretamente.

A revista que publicou o artigo original publicou, na mesma edição,  uma análise do estudo feita por outros cientistas. Eles também apontaram algumas limitações. “Primeiro, o estudo avaliou o efeito da recomendação do uso de máscara, não o efeito de realmente utilizá-las. A adesão às recomendações de saúde pública é sempre imperfeita”, escrevem. “Segundo, o efeito de uma recomendação de uso de máscara também depende de muitos outros fatores, incluindo a prevalência do vírus, comportamentos de distanciamento social e frequência e características dos encontros sociais. O uso de máscara é apenas uma entre várias estratégias que interagem entre si para reduzir a transmissão viral, com cada uma reforçando as demais”.

Recomendação de uso de máscaras continua

Tanto Bandeira quanto Ribeiro acreditam que o estudo dinamarquês não é suficiente para justificar uma mudança nas orientações quanto ao uso de máscaras como forma de frear a transmissão do SARS-CoV-2. “Vários outros trabalhos e grandes intervenções epidemiológicas mostram que o uso de máscaras é fundamental. O importante é saber usá-las”, destaca o infectologista, sublinhando o alto grau de proteção conferido pelas máscaras cirúrgicas e respiratórias, como a N-95, e a importância de manter distanciamento social rigoroso em momentos em que se está sem máscara – por exemplo, na hora de comer ou tomar um cafezinho.

“A maioria dos estudos que temos até agora orienta o uso de máscara, as medidas de distanciamento social e a higiene das mãos”, completa Ribeiro. A pneumologista argumenta, ainda, que o uso de máscara é uma forma de as pessoas infectadas, mesmo assintomáticas, diminuírem a transmissão para outras: “Do ponto de vista sanitário, isso é muito importante”. Ela lembra, também, que há evidências de que o uso de máscara, do ponto de vista de quem as utiliza, pode reduzir a carga viral com que se tem contato, ainda que não evite completamente a infecção pelo coronavírus. “Uma carga viral mais baixa possivelmente corresponderá a um adoecimento mais brando”, explica.

Portanto, a mensagem segue clara: use máscaras. Elas são aliadas importantes para a proteção individual e coletiva contra a COVID-19.


Apesar do burburinho nas redes sociais, não há evidências de que o alimento possa auxiliar o controle da doença.

Vira e mexe, circulam nas redes sociais posts sobre soluções caseiras para tratar ou prevenir a COVID-19. Alho, pimentas e banhos quentes são exemplos de algumas estratégias já desmentidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  Nos últimos dias, voltou a circular uma mensagem sobre a suposta ação do óleo de coco sobre a doença.

O tema possivelmente ganhou força depois da 5ª Conferência Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Filipinas, realizada entre os dias 9 e 11 de novembro. Durante o evento, foram apresentadas pesquisas sobre o novo coronavírus apoiadas pelo Conselho Filipino para Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde (PCHRD, na sigla em inglês). Uma delas, liderada pelo professor da Universidade Ateneo de Manila, Fabian Dayrit, investiga o potencial antiviral de dois compostos do óleo de coco, monolaurina e ácido láurico. Sua proposta é usar essas substâncias contra o SARS-CoV-2 – uma ideia que Dayrit defende pelo menos desde janeiro, quando publicou a proposta de um ensaio clínico no site da Universidade.

A página do PCHRD anuncia que um experimento “revelou evidências de que o óleo de coco virgem pode ser um meio de derrotar a COVID-19“, sem dar muitos detalhes sobre o estudo. No mesmo texto, sugere que resultados de ensaios clínicos ainda em andamento irão determinar se o alimento poderá ser utilizado como terapia para pacientes com a doença. “Ainda que mais investigações sejam necessárias antes que criemos uma possível opção de tratamento ou prevenção, queremos dar aos filipinos esperança, por meio de nossas iniciativas locais de pesquisa”, disse o secretário do Departamento de Ciência e Tecnologia Fortunato de la Peña.

As Filipinas estão entre os maiores produtores mundiais de óleo de coco e Dayrit, que atua na área da química de produtos naturais, vem estudando o produto há vários anos. No perfil do pesquisador na rede Google Scholar (consultado no dia 17 de novembro), no entanto, não há indicação de artigo publicado sobre óleo de coco e COVID-19 em revistas científicas revisadas por pares, consideradas as mais confiáveis para se anunciar (ou se informar sobre) resultados de pesquisas. Tampouco na página de Dayrit na Universidade. Na base de dados PubMed, uma das mais relevantes para a pesquisa em ciências da saúde, também não encontramos nada de sua autoria sobre o tema. Ou seja, tudo indica que ainda não há evidências publicadas e verificáveis de que o alimento possa contribuir para o enfrentamento da pandemia. Portanto, recomendar ou fazer uso do óleo de coco contra a COVID-19 parece prematuro e arriscado, sobretudo se isso significar deixar de tomar outras medidas preventivas, como distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos.

A OMS, em página sobre nutrição e COVID-19, afirma que o bom funcionamento do sistema imunológico humano requer o consumo de vários nutrientes, a serem obtidos por meio de uma dieta balanceada e saudável. Porém, esclarece que nenhum alimento, isoladamente, previne a doença. A página não menciona especificamente o óleo de coco.

O Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde (MS) brasileiro, em julho deste ano, publicou nota técnica sobre o uso da monolaurina na prevenção e tratamento de pacientes com COVID-19. A equipe responsável consultou diferentes bases de dados sobre pesquisas em saúde, incluindo registros de ensaios clínicos, e não encontrou estudos sobre monolaurina e SARS-CoV-2. Por isso, o documento afirma que não há evidências científicas que suportem o uso da substância na prevenção ou tratamento da COVID-19.

“É prudente alertar sobre o crescente número de informações online que disseminam suposições de que produtos naturais, como o óleo de coco, teriam um efeito ‘protetor’ contra a infecção pelo SARS-CoV-2. Não há evidências robustas acerca dessa temática e tampouco regulamentação por agência de vigilância sanitária nacional ou internacional para esses produtos com essa finalidade de uso”, conclui a nota técnica. Embora o texto afirme que a nota poderá ser atualizada caso surjam novas evidências científicas, esta era a versão mais atual disponível no site do MS até a data de fechamento desta matéria.


Embora tenha possivelmente um comportamento sazonal, o SARS-CoV-2 continuará circulando no país, podendo causar surtos locais – não está na hora de baixar a guarda!

Nos últimos meses, observamos que a pandemia de COVID-19, em países do hemisfério Norte – particularmente, na Europa –, desacelerou durante o período mais quente do ano.  Em seguida, com a chegada do outono e de um clima mais frio, vários desses países viram nascer a famosa e temida segunda onda, com novo aumento no número de casos e retorno a medidas como as quarentenas. No Brasil, onde o clima começa a esquentar rumo ao verão, algumas pessoas já apostam que o calor nos livrará da COVID-19. Infelizmente, é pouquíssimo provável que isso aconteça.

O crescimento do número de casos no país, embora venha observando uma ligeira desaceleração nas últimas semanas, ainda está em um patamar considerado alto e o número de mortes é maior do que aquele observado em outras partes do mundo (acompanhe os dados oficiais na página criada pelo Ministério da Saúde). “Provavelmente, essa tendência de queda seguirá até o verão”, acredita o sanitarista Christovam Barcellos, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz. “Mas, mesmo durante a queda, podem aparecer surtos localizados, como já observamos em Florianópolis, Manaus, Cuiabá. Isso significa que o vírus continua circulando e que, ao relaxarmos as medidas de contenção, o número de novos casos pode subir novamente”.

Para a epidemiologista e infectologista Gerusa Maria Figueiredo, do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo, a situação da COVID-19 no Brasil apresenta muitas particularidades. “Nossa curva parece ser única no mundo”, diz. “Enquanto em outros locais a curva sobe, desce e, depois, por algum motivo, sobe de novo, nós tivemos uma subida e uma manutenção, e agora uma queda, mas em patamares ainda muito altos”.

Comparar o que acontece no Brasil com o comportamento da pandemia nos países europeus tem algumas limitações, a começar pelas dimensões geográficas de cada território. Outro fator que dificulta a comparação são as diferentes medidas tomadas em cada país para conter a COVID-19: enquanto alguns países adotaram a testagem massiva como estratégia, outros implementaram lockdown após um grande número de casos, por exemplo. No Brasil, houve uma reação mais desorganizada.

Sazonalidade da COVID-19

Um estudo publicado na PNAS no dia 3 de novembro sugere que a COVID-19 possa ter um comportamento sazonal, isto é, que varie de acordo com a estação do ano. A conclusão surgiu a partir de um modelo criado para prever o comportamento da doença diante de certos parâmetros de temperatura, umidade e radiação ultravioleta – fatores que, segundo estudos anteriores, interferem na propagação do novo coronavírus. “As projeções sugerem que, sem intervenções, a COVID-19 vai descrescer temporariamente durante o verão, com retomada no outono e pico no próximo inverno”, escreveram os autores do artigo, submetido em maio, antes do verão no hemisfério Norte. O texto admite, porém, que ainda há muita incerteza, e que outros fatores além do clima interferem em como a doença se comporta. “Assim, o mundo precisa continuar vigilante”, alerta o texto.

Figueiredo reforça a mensagem, dizendo que ainda é cedo para chegarmos a conclusões definitivas sobre a sazonalidade da COVID-19. Por outro lado, um dado que corrobora a hipótese é que outras doenças infecciosas do trato respiratório, como as gripes, também se comportam de maneira sazonal, com aumento do número de casos durante o inverno.

“O pico da COVID-19 na Europa aconteceu no final do inverno; no Brasil, foi durante o inverno. E nesta segunda onda na Europa, ao que parece, o pico será no inverno novamente. O clima tem, provavelmente, uma participação”, avalia Barcellos, lembrando, no entanto, que a variação de temperatura entre as estações no Brasil não é tão drástica quanto na Europa.

Ainda assim, segundo o especialista, o inverno brasileiro tem algumas características que favorecem a transmissão da COVID-19, como a baixa umidade. Além disso, os casos tendem a ser mais graves no clima mais frio e seco. “Mesmo se o contágio for mais ou menos o mesmo, a forma clínica tende a ser mais grave, pois há uma penetração maior do vírus no trato respiratório inferior”, explica. Ele ressalta, ainda, a alta incidência de queimadas como fator de risco para o agravamento da pandemia no Brasil durante os meses de inverno: “A coexistência entre exposição à fumaça e ao vírus é muito perigosa, pois torna as pessoas mais vulneráveis”.

Oportunidade de planejamento

Se a queda no crescimento dos casos de COVID-19 se mantiver de fato durante o verão brasileiro, esse “respiro” pode ser uma brecha valiosa para reorganizar o que for necessário para encarar um novo aumento quando o clima voltar a esfriar. “Temos uma oportunidade de reformular o sistema de saúde brasileiro, olhando o que deu certo e o que deu errado em outros países”, defende Barcellos. “É importante fortalecer a atenção primária em saúde, que vai fazer aconselhamento, cuidar dos mais vulneráveis, encaminhar os casos mais graves para o hospital. E também incrementar as ações de vigilância em saúde, não só com a testagem, mas também com a investigação dos casos e o rastreio dos contatos”.

Quanto à população, o sanitarista orienta que mantenha-se atenta às medidas de prevenção, como distanciamento social, uso de máscara e higienização das mãos.  “Já é consenso na comunidade científica que os locais mais perigosos para se contaminar são os lugares fechados, sem exposição ao sol, não arejados, com muitas pessoas, conversando alto, cantando”, alerta. Ele sugere, portanto, evitar espaços como boates, e destaca iniciativas que promovam a interação ao ar livre, como têm feito algumas escolas.


Exame feito a partir da coleta de material da mucosa de pacientes é altamente sensível e pode detectar infecções ativas pelo SARS-CoV-2.

“PCR é baboseira”. A frase, atribuída ao jogador de futebol Cristiano Ronaldo, que testou positivo para COVID-19 mesmo se sentindo bem e sem apresentar sintomas, motivou uma onda de postagens nas redes sociais questionando a confiabilidade dos testes moleculares para detecção do SARS-CoV-2. Porém, esta é a melhor ferramenta que temos para detectar a infecção pelo vírus em sua fase ativa. O microbiologista Leandro Lobo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defende a técnica: “é extremamente sensível, rápida, prática, barata e bem conhecida dos cientistas e técnicos de laboratório”.

A técnica conhecida como PCR – sigla, em inglês, para reação da polimerase em cadeia – foi desenvolvida na década de 1980 pelo cientista norte-americano Kary Mullis. Naquela época, já se sabia que a informação genética dos organismos estava armazenada em moléculas de DNA. Porém, para analisar esse material, era necessário ter grandes quantidades da molécula, impossíveis de obter a partir de pequenas amostras. Assim, o PCR surgiu para multiplicar moléculas de DNA rapidamente, de modo a gerar a grande quantidade necessária para sua análise. Pela técnica, Mullis recebeu o prêmio Nobel de Química em 1993. O cientista – a quem fake news já atribuíram afirmações de que sua técnica não era capaz de diagnosticar COVID-19 – faleceu em agosto de 2019, antes da pandemia.

Quando uma célula vai se multiplicar, gera em seu interior cópias de seu DNA. Assim, quando a célula original se divide, cada “célula filha” contém uma cópia completa de material genético. O que o PCR faz é imitar este processo em laboratório: a partir de uma amostra de DNA, são geradas muitas cópias. Assim, é possível estabelecer com clareza se determinado material genético está presente em uma amostra.

Em vírus como o SARS-CoV-2, o material genético é composto não de DNA, mas de outro tipo de molécula, chamada RNA. Assim, é necessário utilizar uma técnica complementar ao PCR, capaz de gerar moléculas de DNA a partir do RNA do vírus, e em seguida fazer a multiplicação.

Teste molecular versus exame sorológico

Durante a pandemia de COVID-19, dois tipos de testes vêm sendo usados para identificar infecções: o molecular, feito a partir da técnica PCR, e o sorológico, que procura, no sangue dos pacientes, anticorpos específicos contra o SARS-CoV-2. O exame molecular, por identificar material genético do vírus nas amostras extraídas das mucosas de pacientes – geralmente por meio de um swab inserido nas narinas –, é o mais indicado para detectar infecções ativas.

“Para que o teste PCR seja positivo, normalmente é necessário que o organismo do hospedeiro esteja infectado e produzindo vírus. Então, o PCR ajuda a diagnosticar infecções que estão ativas, com produção de vírus”, explica Lobo. “Já os testes sorológicos buscam por anticorpos que o nosso organismo produziu em resposta ao vírus. A presença de anticorpos indica que houve, em algum momento, uma infecção”.

Segundo o especialista, o teste molecular é o mais indicado para realizar logo após o início dos sintomas da COVID-19, de modo a orientar condutas médicas sobre o cuidado com os pacientes. O exame sorológico, por sua vez, é mais útil para fazer estudos epidemiológicos, que procuram entender a dinâmica da infecção em uma determinada população.

Falsos positivos e falsos negativos

Nenhum teste diagnóstico é perfeito. Portanto, existe chance, embora pequeníssima, de um exame realizado com a técnica PCR apresentar um resultado impreciso. No diagnóstico da infecção por SARS-CoV-2 via PCR, porém, é mais provável acontecer um caso falso negativo – isto é, uma pessoa infectada apresentar resultado negativo no exame – do que um falso positivo – em que um paciente não contaminado apresente resultado positivo. “O teste PCR para COVID-19 tem um sensibilidade muito alta, então, o número de falsos positivos é baixíssimo. Quase não acontece”, afirma Lobo.

Um resultado falso negativo pode acontecer quando um paciente realiza o teste cedo demais, num momento em que a quantidade de vírus em seu organismo ainda é muito pequena para ser detectada via PCR. Outras possibilidades seriam a coleta inadequada de material ou um problema no armazenamento ou transporte das amostras. Por isso, se um paciente com sintomas de COVID-19 receber um resultado negativo, é recomendável manter o isolamento e refazer o teste alguns dias depois.


Pesquisadores contestam a ideia de que deixar a COVID-19 se espalhar na população criaria proteção coletiva contra a doença no Brasil.

Desde o começo da pandemia, certos grupos defendem que é necessário deixar a COVID-19 infectar parte da população – em especial as pessoas que não fazem parte do grupo de risco para as formas graves da doença –, de modo a desenvolver imunidade coletiva contra ela. Mais recentemente, postagens nas redes sociais vêm afirmando que cidades ou regiões que já tiveram grande parte de suas populações infectadas atingiram um patamar de “imunidade de rebanho”, em que a doença seria naturalmente contida. Os dois raciocínios são falaciosos, segundo especialistas.

O conceito de imunidade de rebanho, também chamado imunidade coletiva ou proteção coletiva, corresponde à proteção que a sociedade como um todo tem quando uma parte da população já está imune à doença – o que geralmente se consegue por meio da vacinação em massa. “Se uma quantidade suficientemente grande de pessoas está protegida, a doença não consegue mais se espalhar, porque uma pessoa contaminada não encontra uma pessoa suscetível a quem transmitir”, esclarece o médico e pesquisador Marcio Bittencourt, do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. A proporção de pessoas a serem vacinadas para atingir a imunidade de rebanho varia de acordo com o vírus, bactéria ou outro agente infeccioso que se queira combater.

No caso da COVID-19, como ainda não existe vacina disponível, é descabido pensar em imunidade de rebanho, por dois motivos principais: primeiro, seria necessário deixar a população se infectar livremente, o que acarretaria altos números de mortos e pessoas com sequelas da doença, além de sobrecarregar os sistemas de atendimento em saúde. “É como você estar numa guerra e dizer que vai deixar o inimigo fazer o que quiser. A guerra vai acabar porque você vai perder. Isso não é uma estratégia, é ausência de estratégia”, compara Bittencourt.

Além disso, estudos recentes sugerem que a imunidade adquirida por quem já teve COVID-19 pode ser apenas temporária. Assim, ainda que algumas regiões atingissem certa proteção coletiva, ela seria instável no médio e no longo prazo. Meses depois, o vírus voltaria a circular naquela mesma população. Portanto, ao que tudo indica, é impossível afirmar que qualquer região no Brasil ou no mundo tenha, de fato, atingido imunidade de rebanho contra a COVID-19.

Mas, se a proteção coletiva ou imunidade de rebanho é impossível de atingir sem uma vacina eficaz, o que explica a desaceleração do crescimento do número de casos e mortes pela COVID-19 em algumas regiões onde muitas pessoas já foram infectadas? Bittencourt lembra que desaceleração das transmissões é um fenômeno conhecido e previsível, que acontece por três fatores principais: a prática de estratégias de controle da propagação do vírus (como distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos), a grande quantidade de pessoas já infectadas (e que, portanto, adquiriram imunidade pelo menos temporária contra o vírus) e uma possível sazonalidade da infecção (como sugere a curva de casos na Europa, onde o número de novos casos baixou durante os meses de verão e, agora, volta a subir).

Bolhas de proteção

Outra forma de explicar a desaceleração da doença em algumas regiões é o fenômeno das bolhas de proteção, conforme sugere um grupo multidisciplinar de pesquisadores brasileiros que desenvolveu um modelo matemático para estudar a pandemia. A iniciativa, que recebeu o nome de Ação COVID-19, vem avaliando a evolução do número de casos em diferentes regiões do país. “Em março, já conseguíamos prever que a epidemia viria em ondas”, afirma a física Patrícia Magalhães, pós-graduanda na Universidade de Bristol, na Inglaterra. “Vemos que há surtos em certas regiões, a curva de infectados sobe e depois desce. Essa queda se explica pelo que chamamos esgotamento de rede: um doente contamina as pessoas à sua volta, e depois acaba não tendo mais a quem contaminar”.

Em um trabalho divulgado em agosto como pre-print – portanto, ainda sem revisão por pares – a pesquisadora e outros colaboradores da Ação COVID-19 avaliam a dinâmica populacional da doença na cidade de São Paulo, considerando dados como a porcentagem da população que já teve contato com o vírus e a parcela de pessoas que estiveram confinadas em casa ao longo dos meses. Ao contrário do que dizia a intuição de parte dos autores, o número de novos casos na cidade não continuaria aumentando indefinidamente, mas, segundo o modelo, em dado momento começaria a cair, por causa do que eles chamaram de “bolhas de proteção”.

O economista José Paulo Guedes Pinto, professor da Universidade Federal do ABC e co-autor do estudo, explica: “O isolamento social, o não contato entre pessoas de diferentes localidades, a cultura das intervenções não farmacêuticas (lavar as mãos, usar máscaras), tudo isso restringe a rede de infecção do vírus e produz algumas bolhas locais de proteção. Então você tem, por exemplo, bairros em que poucas pessoas pegaram o novo coronavírus e, portanto, estão suscetíveis, mas têm pouco contato com bairros onde muitas pessoas pegaram e ainda estão transmitindo. Isso não é imunidade de rebanho: é um equilíbrio instável, que pode ser furado a qualquer momento”. Em outras palavras, o número de casos pode voltar a subir depois de certo tempo em queda.

Portanto, a desaceleração da transmissão da COVID-19, embora esperada, não pode ser vista como indício de que a pandemia vai se controlar naturalmente. O vírus continuará circulando, provavelmente, por um bom tempo, deixando pessoas doentes e causando mortes. “Temos que pensar em como conviver com isso e como proteger as pessoas mais vulneráveis”, opina Magalhães.

Pinto completa: “Para atingir de fato a imunidade de rebanho, é preciso desenvolver uma vacina que seja eficaz para a maioria das pessoas, que desenvolva uma imunidade estável e previsível, e vacinar a maior parte da população. E hoje a gente está longe disso”. Bittencourt também concorda. “A vacina seria a principal estratégia de controle da doença no longo prazo. Nada substitui uma vacina”, conclui.


Postagens nas redes sociais usam o exemplo da Suécia, que não impôs o fechamento de escolas e estabelecimentos comerciais, para criticar recomendações dos principais órgãos de saúde.

“A Suécia estava certa”, dizia uma postagem replicada nas redes sociais. Seu principal argumento era o de que o país europeu, que não impôs medidas rígidas para promover o distanciamento social, ainda assim viu diminuírem, com os meses, o número de mortes registradas por COVID-19. Seria este um argumento válido para criticar medidas que promovam o distanciamento social no Brasil? Dificilmente.

Logo no início da pandemia, vários órgãos de saúde começaram a recomendar medidas que reduzissem o contato entre as pessoas, como forma de evitar que pacientes contaminados pela COVID-19 transmitissem a doença a terceiros. “Essas medidas foram tomadas com base em estudos de simulação matemática que mostraram que era necessário promover o distanciamento social, no sentido de impedir ou diminuir a transmissão da doença, para que isso não levasse a um congestionamento grave dos sistemas de saúde, que não estavam preparados para atender, de forma simultânea, a todos os casos”, esclarece o infectologista Kleber Luz, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Vários países em todo o mundo adotaram medidas de distanciamento social antes mesmo que a situação da COVID-19 se tornasse grave em sua população. Países como Noruega, Dinamarca e Alemanha conseguiram manter baixos os seus índices de mortos pela pandemia. “O distanciamento social, estatisticamente falando, é a melhor e a mais barata ação que você pode fazer para segurar a dispersão da doença”, avalia o biólogo Marcelo Mendes Brandão, do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Universidade Estadual de Campinas, acrescentando que, em países que não adotaram ou adotaram tardiamente essas medidas, como Suécia, Inglaterra e País de Gales, houve um pico de contaminação e mortes. “Na Inglaterra, que resolveu fechar vários estabelecimentos a partir do final de abril, dá pra ver que houve uma queda enorme no número de casos. É o efeito do distanciamento”, completa. “Países que promoveram o distanciamento não tiveram pico de mortes”.

Críticas da comunidade científica

O modelo sueco para o enfrentamento da pandemia foi tema de reportagem na revista Science em 6 de outubro. Segundo o texto, as autoridades daquele país tomaram medidas apenas modestas para reduzir aglomerações e, embora parte da população tenha decidido ficar em casa, lojas e restaurantes continuaram abertos. Contatos próximos de casos confirmados de COVID-19 também não foram solicitados a ser testados ou fazer quarentena, como ocorre em outros países. Em geral, a quantidade de testes realizados na Suécia ficou atrás da média de outros países.

Parte da comunidade científica se manifestou publicamente contra a forma como o governo sueco tem lidado com a pandemia, argumentando que o preço dessa abordagem foi muito alto. “A taxa de mortalidade cumulativa do país desde o início da pandemia rivaliza com a dos Estados Unidos, com sua resposta caótica. E o vírus teve um impacto chocante nos mais vulneráveis”, diz a reportagem, citando o alto número de mortes em residências de idosos, cujos doentes, muitas vezes, sequer eram levados aos hospitais. Embora o número de casos tenha diminuído durante o verão no hemisfério Norte, cientistas temem que surja uma nova onda nos meses mais frios, e afirmam que os casos já voltaram a crescer na região da capital, Estocolmo.

Realidade brasileira

Comparar as estratégias usadas na Suécia e seus resultados com o que foi ou poderia ser feito no Brasil seria, no mínimo, falta de cuidado. Afinal, os dois países têm características muito distintas, a começar pelo tamanho do território e da população.

Brandão, que atua na área de bioinformática, tem estudado como a queda no grau de distanciamento social se relaciona com o número total de casos de COVID-19 em algumas regiões brasileiras, especialmente no estado de São Paulo. Alguns resultados já apontam que o relaxamento das restrições corresponde a um aumento significativo no número de casos. “O estado de São Paulo vinha numa certa estabilidade no número de novos casos. No feriado de 7 de setembro, vimos um aumento de 46% no trânsito do estado e, depois, um crescimento também de 46% no número de casos de COVID-19”, exemplifica. “Nosso modelo também indicou que, em algumas cidades do interior do estado, houve pico de casos cerca de 20 dias após as festas das padroeiras. Essas coincidências nos fazem pensar…”

Embora confie que o distanciamento social seja eficaz, o especialista reconhece que não é fácil mantê-lo, especialmente em comunidades mais pobres, onde muitas pessoas dividem espaços pequenos e a maioria dos trabalhadores não pode ficar em casa. Ele também acredita que a reabertura de escolas e estabelecimentos comerciais, observada em diferentes estados brasileiros, não voltará atrás.

Para Luz, a realidade brasileira dificulta o estabelecimento e o cumprimento de medidas rígidas como o lockdown (quarentena) proposto em outros países. “Adotar um lockdown em um país gigante como o Brasil, eu penso que é, na prática, impossível. Temos uma estratificação social muito grande, realidades completamente diferentes”, pondera, chamando atenção para o fato de que apenas parte dos trabalhadores, por exemplo, foi capaz de permanecer em casa sem prejuízo de renda – o que limitou a adesão da população brasileira às recomendações de saúde pública.

“Precisamos pensar em corresponsabillidade. Eu não posso cobrar 100% do governo uma política de distanciamento, nem 100% dos cidadãos”, conclui Brandão. “A falta de organização é o nosso problema. Falta pé no chão, pensar que a gente precisa aprender a conviver com o vírus por muito tempo. Precisamos de políticas sérias indicando para as pessoas o que fazer”.