Categoria: Fato x fake

Não acredite nos boatos de que o vírus pode ser transmitido via redes celulares.

Várias fake news espalhadas por aí tentam relacionar o coronavírus causador da COVID-19 e as novas tecnologias de comunicação. Por exemplo, há quem diga que as ondas espalhadas pelas antenas 5G prejudicam o sistema imunológico e o impedem de funcionar, tornando a população mais suscetível ao vírus. Outras notícias falsas anunciam que o coronavírus pode, de alguma forma, ser transmitido via tecnologia 5G. E tem até quem afirme que o vírus foi uma estratégia criada pelo fundador da Microsoft, Bill Gates, para vacinar a população mundial com um chip especial. Oi?

Vamos por partes. Para começar, ainda no início da pandemia, cientistas concluíram que o SARS-Cov-2 não apresenta qualquer indício de ter sido criado em laboratório. Quem explica é a professora associada do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luciana Costa: “Assim que os primeiros casos de COVID-19 foram observados, uma das primeiras coisas que se fez foi sequenciar o ácido nucleico do vírus associado aos casos. Se identificou que era um vírus até então não conhecido por nós. E as análises da sequência mostraram que era muito parecida com vírus já conhecidos que encontramos em morcegos. Nada na sequência indica que possa ter sido criada pelos seres humanos. Todos os trechos da sequência parecem consequências de vírus parentes que circulam em outros animais, como morcego e pangolim”.

Segundo a especialista, a análise do material genético dos vírus permite identificar com alto grau de confiança a origem de uma sequência de DNA ou RNA. Por isso, podemos descartar a hipótese de que o novo coronavírus tenha sido criado intencionalmente em laboratório.

Redes celulares e saúde

Embora a tecnologia 5G seja muito nova e a ciência ainda não tenha investigado a fundo sua relação com a saúde humana, não há indícios que levantem suspeita de um efeito maléfico sobre o sistema imunológico. Em relação à tecnologia que a precede, 4G, também não há dados que gerem preocupação. “Até o momento, nada foi relatado sobre prejuízos da tecnologia 4G sobre o sistema imune ou qualquer outro órgão, tecido ou sistema humano”, afirma Costa.

Se efeitos negativos da tecnologia 5G sobre o sistema imunológico humano estão na esfera do improvável, a transmissão do novo coronavírus via redes celulares está mais para o impossível.

“Podemos afirmar com certeza: não existe o menor risco de uma partícula viral ser transmitida via uma rede de transmissão de dados”, garante Costa. “A gente está falando de uma partícula biológica que tem cerca de 80 nanômetros de tamanho. Não tem como ela ser transmitida por uma rede de transmissão de dados, que transmite ondas ou pacotes de informação”. Segundo a especialista, a possibilidade seria inexistente mesmo que o vírus fosse ainda menor.

Cada vírus tem sua peculiaridade, e diferentes tipos de vírus podem ser transmitidos de diferentes maneiras. Entre as mais comuns estão a via aérea – que compreende vírus respiratórios –, a via oral-fecal (ingestão de partículas de fezes contaminadas), a via parenteral (a partir do contato com o sangue), a via sexual e a passagem pela pele, no caso de vírus transmitidos, por exemplo, por picadas de mosquitos e outros insetos.

No caso da transmissão aérea, os vírus estão presentes em gotículas de saliva e fluidos respiratórios, e podem ser transmitidos de pessoa a pessoa por contato próximo ou por meio de aerosóis, em uma distância um pouco maior, de até dois ou três metros. “Nessa forma de contato, a presença de vírus viáveis em superfícieis também pode ser uma forma de transmissão”, diz Costa, explicando que alguém pode tocar a superfície contaminada e, em seguida, levar a mão à boca, ao nariz ou aos olhos, contaminando-se.

Portanto, manter o distanciamento social e higienizar com frequência as mãos e as superfícies são as formas mais seguras de se evitar a contaminação pelo coronavírus – e não destruir antenas de dados celulares.

A ciência ainda está tentando entender esta nova doença, a COVID-19, mas já tem algumas certezas – uma delas é que pessoas de qualquer idade podem ser acometidas.

Corre por aí que as crianças não são suscetíveis ao novo coronavírus, o SARS-CoV-2, e que, por isso, não há sentido em manter as escolas fechadas. Isto é fake news! Pessoas de qualquer idade podem ser contaminadas por esse vírus.

Desde o início da pandemia, cientistas e gestores de saúde vêm observando como a doença se comporta ao redor do mundo. Logo cedo, ficou claro que as manifestações graves da COVID-19 são mais raras em pessoas com menos de 10 anos. Veja bem: “mais raras” não significa que crianças não desenvolvam a doença! Há, inclusive, casos de crianças com Síndrome Inflamatória Multissistêmica, um quadro de inflamações graves em diversos órgãos e sistemas, que parece estar associado à COVID-19.

Mesmo se não ficarem doentes, acredita-se que as crianças possam ter um papel na transmissão da infecção para outras pessoas, ou seja, elas podem ser contaminadas com o vírus e passá-lo para outros indivíduos. Afinal, crianças não vivem sozinhas e, se contaminadas na escola, por exemplo, poderiam levar o vírus para casa, inclusive a idosos e adultos com problemas de saúde que os colocam no grupo de risco para as formas graves da COVID-19.

A suspensão das aulas presenciais em escolas de muitos países foi uma resposta a essa e outras questões relacionadas ao novo coronavírus.

“O primeiro aspecto é reconhecer que as informações vêm aos poucos. A ciência é construída com o acúmulo de conhecimentos. E há ainda muitas lacunas, ainda temos muito a aprender”, admite o pediatra e infectologista Marco Aurélio Palazzi Sáfadi, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

No decorrer da pandemia, avalia o especialista, já foi possível consolidar alguns conhecimentos sobre o comportamento da COVID-19 em crianças. “O primeiro é que a COVID-19, na população abaixo dos 10 anos de idade, tem um cenário muito mais favorável do que entre adultos, com menos complicações, menor índice de hospitalizações e menor número de óbitos”, afirma. Mas ressalva: “Não quero dizer, com isso, que não haja risco de morte entre crianças. Infelizmente, há”.

Sáfadi explica que, se entre os adultos já foi possível identificar com mais clareza quais são os grupos de risco para desenvolver as formas graves da doença – idosos, pessoas com doenças de pulmão ou coração, diabetes ou condições que afetam seu sistema imunológico –, entre as crianças esses grupos de risco não são tão claros: eis mais uma questão que a ciência ainda precisa responder.

A hora certa de reabrir as escolas

Depois de mais de quatro meses mantendo as crianças fora da escola no Brasil, é claro que há muita expectativa sobre quando será possível voltar à sala de aula. Com a reabertura de escolas em países da Ásia e da Europa, observou-se surtos pontuais de COVID-19 em algumas localidades. “Foi menos problemático do que esperávamos, mas ainda é necessário ter cautela”, avalia Sáfadi.

Perguntado sobre se já estaria na hora de as escolas brasileiras retomarem as aulas presenciais, ele é categórico: “Em locais que estão vivendo um aumento no número de casos, seria temerária a reabertura das escolas”. O especialista explica que os locais onde as aulas já recomeçaram experimentavam uma situação epidemiológica peculiar, com queda no número de casos de COVID-19. A realidade brasileira ainda não é tão favorável.

Sáfadi acredita que a reabertura das escolas deve ser pensada localmente, já que a situação da COVID-19 varia de uma região para a outra. “Precisamos de um planejamento criterioso e uma abertura parcimoniosa, em locais onde a gente tenha a doença sob controle”, sugere.

A reabertura das escolas é um tema controverso que envolve muitas variáveis. Para aprofundar a discussão, confira aqui o infográfico que fizemos sobre o tema. Publicamos também um vídeo que continua o debate. Não deixe de conferir!

Estudo publicado em importante revista científica reacendeu esperança nessa associação; especialistas (incluindo os autores do trabalho) afirmam que é cedo para afirmar ação protetora.

Recentemente, alguns meios de comunicação anunciaram que um estudo havia confirmado a existência de uma ação protetora da vacina BCG contra a COVID-19. Essa informação é falsa.

Com as medidas de isolamento social se estendendo por mais de quatro meses, é seguro dizer que estamos cansados e, possivelmente, precisando acreditar numa notícia boa em relação à pandemia de COVID-19. Talvez por isso muita gente queira ver resultados animadores de pesquisa como soluções rápidas para o problema causado pelo novo coronavírus, o SARS-Cov-2. Assim, um artigo publicado na revista PNAS sobre a relação entre a cobertura vacinal por BCG na infância e número de casos e mortes por covid-19 acabou gerando anúncios de que a vacina, que previne formas graves de tuberculose, conferia proteção também contra o novo coronavírus. Não é tão simples.

Desde o início da pandemia, cientistas vêm observando a curva de casos em diferentes regiões do globo para tentar entender por que a COVID-19 gera mais casos, ou casos mais graves, em alguns países. “Observou-se que alguns países que têm certas vacinas inseridas obrigatoriamente no seu calendário de imunização na infância, como a BCG e a vacina contra o sarampo, aparentemente apresentavam menor número de casos de COVID-19, e com uma letalidade menor também”, conta a infectologista Raquel Stucchi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Daí, uma das coisas que se pensou é, será que essa proteção dada pelas vacinas obrigatoriamente feitas na infância nesses países poderia ter alguma relação com esse número reduzido de casos de COVID-19?”

Apesar de serem desenvolvidas para proteger as pessoas de doenças específicas, algumas vacinas podem ajudar o sistema imunológico a combater outras infecções. Isso acontece porque o sistema imunológico humano tem duas formas de agir. Uma delas é gerar anticorpos específicos contra patógenos – por exemplo, vírus – com que já teve contato. Essa resposta imunológica, chamada adaptativa, explica por que pessoas que tiveram certas doenças ou foram vacinadas ficam protegidas contra esses patógenos mesmo muito tempo depois da imunização.

Outro braço do sistema imunológico cria as chamadas respostas inatas, que são genéricas, reagindo inespecificamente a qualquer patógeno. “O bacilo de Calmette-Guérin, componente da vacina BCG, tem a particularidade de ser muito inflamatório”, explica o virologista Flávio Guimarães da Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Quando a pessoa é vacinada, ativa o sistema adaptativo, mas também estimula grandemente esse sistema inato. Por isso, uma resposta à vacina BCG poderia acabar afetando a resposta à infecção pelo coronavírus”. Fonseca explica, ainda, que essa proteção cruzada poderia explicar menor susceptibilidade das populações vacinadas com BCG a outras doenças.

No entanto, o virologista ressalta que a proteção da BCG contra o SARS-Cov-2 ainda não foi comprovada – os estudos ainda estão em andamento – e tem dúvidas sobre se os efeitos da BCG, uma vacina aplicada na infância, sobre a resposta imunológica inata perdurariam até a vida adulta. Ele vê, também, uma outra hipótese para explicar a relação observada entre cobertura vacinal por BCG e menos casos de COVID-19. “Países que têm ampla cobertura de BCG são países que também têm sistemas de saúde bem estruturados, o que certamente impacta nos resultados de uma infecção”, argumenta. “Para uma doença como a COVID-19, que depende de cuidados intensivos em suas formas graves, isso pode ter impacto nas taxas de mortalidade. [Os resultados que estamos vendo podem] representar um quadro mais amplo de adequação do sistema público e privado de saúde à realidade daquele país”.

BCG no Brasil

A vacina BCG foi desenvolvida na França no início do século 20, por dois cientistas do Instituto Pasteur. No Brasil, passou a fazer parte do Programa Nacional de Imunizações, como vacina obrigatória, em 1976. A recomendação é que seja aplicada na infância, antes dos quatro anos.

Perguntada sobre a possibilidade de a BCG proteger contra o SARS-Cov-2, Stucchi concorda também com o fato de que são necessários mais estudos antes de pensar políticas de saúde pública relacionadas a essa questão. “É muito cedo ainda para a gente falar se essas vacinas podem realmente conferir proteção ou não contra o coronavírus, esses estudos estão em andamento. Não há indicação de reforçar a vacinação ou de repetir a vacinação contra essas doenças pensando em prevenir a infecção pelo novo coronavírus. Ainda é especulação”.

Ela ressalta, por outro lado, a importância da vacinação com a BCG e também contra sarampo e outras doenças. “Essas vacinas fazem parte do nosso calendário de imunização e é importante que as pessoas sigam o calendário e se vacinem para se proteger contra essas doenças, independentemente do novo coronavírus”.