O vírus que cancelou o carnaval

Conhecida desde a década de 1960, a família viral conhecida como coronavírus nunca tinha causado tanta comoção. Entenda por que, no último ano, ela mudou nosso dia a dia de maneira tão drástica.

Já ultrapassamos um ano de pandemia da COVID-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, e podemos dizer que ela impactou a vida de todos de uma maneira que seria impensável pouco mais de um ano atrás – cancelar o carnaval certamente não estava nos planos dos brasileiros para fevereiro nenhum. Talvez muita gente não saiba que vírus dessa mesma família circulam no mundo há décadas, causando doenças leves como o resfriado comum. Por que, então, este coronavírus, diferentemente de outros 20 já conhecidos, parou o mundo?

Segundo a virologista Giliane de Souza Trindade, da Universidade Federal de Minas Gerais, a resposta está em uma combinação de fatores: o fato de o SARS-CoV-2 gerar doença em humanos – dos 20 coronavírus patogênicos descritos antes da COVID-19, 14 infectam apenas animais –, o fato de ele causar doença grave e morte em uma pequena parcela de infectados e sua altíssima transmissibilidade.

De resfriados a doenças fatais

Descobertos na década de 1960, os coronavírus têm uma aparência peculiar: o material genético em seu núcleo está protegido por um envelope de gordura do qual saem protuberâncias semelhantes a “espinhos” – na verdade, proteínas. Ao observar essas protuberâncias ao microscópio, os cientistas compararam-nas ao aspecto da corona solar – daí o nome coronavírus.

Na natureza, os coronavírus infectam principalmente aves – como galinhas e papagaios – e mamíferos, incluindo porcos, gatos, cachorros, cavalos, camelos, bois, roedores, morcegos e até belugas, uma espécie de cetáceo marinho conhecido como baleia-branca. Entre seres humanos, circulam seis tipos de coronavírus, associados, em geral, a infecções respiratórias brandas. Eles causam, por exemplo, entre 20% e 30% dos resfriados comuns. Mas há três preocupantes exceções: coronavírus que infectam o trato respiratório inferior, criando doenças graves.

No início dos anos 2000, o mundo viu emergir um coronavírus que causava síndrome respiratória severa aguda (SARS, na sigla em inglês) e que recebeu o nome SARS-CoV. A doença gerou epidemia, atingindo vários países e causando cerca de 8 mil casos e 774 mortes em 2003. Já em 2012, foram registrados os primeiros casos da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês), causada por outro coronavírus, MERS-CoV. Desde então, há notícia de 858 mortes pela doença.

Os números parecem muito pequenos perto do que vivemos hoje com a pandemia de COVID-19: até agora, já foram mais de 108,5 milhões de casos registrados no mundo, com pelo menos 2,4 milhões de mortes associadas. “Apesar de o SARS-CoV-2 ser menos letal do que o SARS-CoV, cuja letalidade é cerca de 10%, e do que o MERS-CoV, com letalidade acima de 30%, o novo coronavírus é muito mais transmissível. Por isso, está causando muito mais mortes”, alerta Trindade.

Na SARS e na MERS, explica a pesquisadora, a maior parte dos contágios acontecia apenas depois de os pacientes se tornarem sintomáticos e, pela gravidade das doenças, muitos eram hospitalizados. Assim, sua movimentação ficava restrita – e, consequentemente, havia menos chance de transmitirem a infecção a outras pessoas. Já na COVID-19, há pessoas que desenvolvem forma branda da doença, e também pessoas que não apresentam sintoma algum depois de infectadas pelo vírus, mas ainda assim o transmitem a terceiros. “Por isso batemos tanto na tecla de que o distanciamento social é uma das medidas mais efetivas que temos para enfrentar a pandemia, junto com o uso de máscaras”, defende a virologista.

Vigilância e educação

Historicamente, todos os coronavírus que conhecemos e que causam doenças em humanos infectaram, primeiro, animais. Em alguns casos, a infecção deixa os animais doentes e pode ser letal, em outros, a doença é leve ou assintomática. O que faz com que um vírus de animais passe a infectar seres humanos é difícil prever, mas tem relação com o contato estreito do homem as espécies domésticas e silvestres – por exemplo, pelo consumo de carne de caça.

“Ao longo da nossa existência como sociedade, fomos incrementando cada vez mais o contato com a vida animal, seja pela criação de animais domésticos, seja pela degradação ambiental que promove desequilíbrio ecológico e aumenta o contato de espécies silvestres com populações humanas”, argumenta Trindade. Por isso, ela defende que promover educação ambiental e sanitária é um dos caminhos pelos quais podemos tentar reduzir as chances de que novos vírus de animais passem a infectar humanos.

Outra forma de evitar novas pandemias é estarmos atentos aos vírus que circulam em animais, para nos prepararmos com mais antecedência em relação ao que pode acontecer caso “saltem” para a espécie humana – é a chamada vigilância genômica. “Por exemplo, sabemos da importância dos morcegos e dos roedores para a transmissão de novos vírus a humanos. Então, precisamos conhecer bem os vírus que estão circulando nesses animais, estudando seu genoma e comparando-o aos vírus que já conhecemos”, esclarece a especialista.

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