Óleo de coco contra COVID-19

Apesar do burburinho nas redes sociais, não há evidências de que o alimento possa auxiliar o controle da doença.

Vira e mexe, circulam nas redes sociais posts sobre soluções caseiras para tratar ou prevenir a COVID-19. Alho, pimentas e banhos quentes são exemplos de algumas estratégias já desmentidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).  Nos últimos dias, voltou a circular uma mensagem sobre a suposta ação do óleo de coco sobre a doença.

O tema possivelmente ganhou força depois da 5ª Conferência Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Filipinas, realizada entre os dias 9 e 11 de novembro. Durante o evento, foram apresentadas pesquisas sobre o novo coronavírus apoiadas pelo Conselho Filipino para Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde (PCHRD, na sigla em inglês). Uma delas, liderada pelo professor da Universidade Ateneo de Manila, Fabian Dayrit, investiga o potencial antiviral de dois compostos do óleo de coco, monolaurina e ácido láurico. Sua proposta é usar essas substâncias contra o SARS-CoV-2 – uma ideia que Dayrit defende pelo menos desde janeiro, quando publicou a proposta de um ensaio clínico no site da Universidade.

A página do PCHRD anuncia que um experimento “revelou evidências de que o óleo de coco virgem pode ser um meio de derrotar a COVID-19“, sem dar muitos detalhes sobre o estudo. No mesmo texto, sugere que resultados de ensaios clínicos ainda em andamento irão determinar se o alimento poderá ser utilizado como terapia para pacientes com a doença. “Ainda que mais investigações sejam necessárias antes que criemos uma possível opção de tratamento ou prevenção, queremos dar aos filipinos esperança, por meio de nossas iniciativas locais de pesquisa”, disse o secretário do Departamento de Ciência e Tecnologia Fortunato de la Peña.

As Filipinas estão entre os maiores produtores mundiais de óleo de coco e Dayrit, que atua na área da química de produtos naturais, vem estudando o produto há vários anos. No perfil do pesquisador na rede Google Scholar (consultado no dia 17 de novembro), no entanto, não há indicação de artigo publicado sobre óleo de coco e COVID-19 em revistas científicas revisadas por pares, consideradas as mais confiáveis para se anunciar (ou se informar sobre) resultados de pesquisas. Tampouco na página de Dayrit na Universidade. Na base de dados PubMed, uma das mais relevantes para a pesquisa em ciências da saúde, também não encontramos nada de sua autoria sobre o tema. Ou seja, tudo indica que ainda não há evidências publicadas e verificáveis de que o alimento possa contribuir para o enfrentamento da pandemia. Portanto, recomendar ou fazer uso do óleo de coco contra a COVID-19 parece prematuro e arriscado, sobretudo se isso significar deixar de tomar outras medidas preventivas, como distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos.

A OMS, em página sobre nutrição e COVID-19, afirma que o bom funcionamento do sistema imunológico humano requer o consumo de vários nutrientes, a serem obtidos por meio de uma dieta balanceada e saudável. Porém, esclarece que nenhum alimento, isoladamente, previne a doença. A página não menciona especificamente o óleo de coco.

O Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde (MS) brasileiro, em julho deste ano, publicou nota técnica sobre o uso da monolaurina na prevenção e tratamento de pacientes com COVID-19. A equipe responsável consultou diferentes bases de dados sobre pesquisas em saúde, incluindo registros de ensaios clínicos, e não encontrou estudos sobre monolaurina e SARS-CoV-2. Por isso, o documento afirma que não há evidências científicas que suportem o uso da substância na prevenção ou tratamento da COVID-19.

“É prudente alertar sobre o crescente número de informações online que disseminam suposições de que produtos naturais, como o óleo de coco, teriam um efeito ‘protetor’ contra a infecção pelo SARS-CoV-2. Não há evidências robustas acerca dessa temática e tampouco regulamentação por agência de vigilância sanitária nacional ou internacional para esses produtos com essa finalidade de uso”, conclui a nota técnica. Embora o texto afirme que a nota poderá ser atualizada caso surjam novas evidências científicas, esta era a versão mais atual disponível no site do MS até a data de fechamento desta matéria.


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