Ainda a cloroquina

Medicamento tem sido alvo de controvérsia desde o início da pandemia. Recentemente, postagens sugerem que ele poderia ter salvado milhares de vidas, mas não há evidências científicas para suportar essa afirmação.

Cloroquina e hidroxicloroquina são dois termos que passaram a fazer parte do vocabulário de muita gente em 2020. Afinal, ambos estão constantemente na mídia, no centro de uma controvérsia sobre como prevenir e tratar a COVID-19, doença que já causou mais de um milhão de mortes no mundo inteiro.

Apesar de não haver evidências científicas robustas para justificar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina como tratamento ou profilaxia contra a infecção pelo novo coronavírus, vira e mexe o assunto volta à tona. No final de setembro, um estudo divulgado pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC, na sigla em inglês) reacendeu, uma vez mais, a discussão.

Como qualquer medicamento pode ter efeitos colaterais, convém investigá-los antes de prescrever seu uso. No caso da cloroquina e da hidroxicloroquina, uma preocupação eram seus efeitos sobre o coração, especialmente em pacientes com história prévia de problemas cardíacos. Porém, o trabalho publicado na revista Europace, da ESC, descreve que o tratamento de curta duração com hidroxicloroquina não levou a arritimias fatais no grupo de pacientes observado.

Com esse resultado em mãos, defensores da hidroxicloroquina já levantaram a bandeira: milhares de vidas poderiam ter sido salvas. Porém, como o próprio press release divulgado pela ESC destaca, “este estudo não foi desenhado para testar a eficácia da hidroxicloquina sobre a COVID-19”. Trocando em miúdos, o trabalho, embora mostre que o medicamento não matou os pacientes, não afirma que ele foi útil em sua recuperação.

Por isso, para o infectologista Plinio Trabasso, do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, o estudo recém-publicado não muda a forma como os médicos devem tratar pacientes diagnosticados com COVID-19. “Está muito bem sedimentado,  através de outros estudos, que a cloroquina não tem qualquer impacto na melhora clínica ou mesmo na sobrevida de pacientes com COVID-19”, afirma.

A pneumologista Patrícia Canto Ribeiro, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, reforça: “O uso de cloroquina ou hidroxicloroquina não é recomendado para tratamento ou profilaxia da COVID-19”. Ela destaca, também, que, embora tenha sido publicado agora, o estudo da ESC foi realizado ainda no início da pandemia, durante os meses de março e abril, quando investigações sobre a eficácia desses medicamentos estavam em andamento.

Medicina baseada em evidências

A comunidade científica internacional tem trabalhado intensivamente para esclarecer as características do novo coronavírus e da doença por ele causada. Isso inclui avaliar o potencial terapêutico de diferentes drogas. Porém, antes de recomendar o uso de um ou outro medicamento, é necessário que haja estudos conclusivos sobre sua segurança e eficácia.

“Os recursos para a saúde são escassos, então, quando se gasta recurso com intervenção sem eficácia, se está desperdiçando dinheiro que poderia ser utilizado em medidas realmente eficazes seja no tratamento, seja na prevenção ou no controle desta ou de outra doença”, argumenta Trabasso. O especialista reitera que as condutas dos profissionais e gestores em saúde deve estar baseada em evidências científicas consolidadas. “Somente deste modo é possível alocar recursos em medidas que efetivamente mudem os desfechos (diminuição da mortalidade, diminuição de tempo de hospitalização, diminuição de uso de ventilação mecânica etc.)”, diz.

Ao público, Ribeiro alerta sobre os perigos da automedicação: “Ninguém deve tomar medicamentos sem orientação médica.  Ao apresentar sintomas, é importante procurar o serviço de saúde para o correto acompanhamento”.


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