Os números da pandemia não estão exagerados

Fique de olho nas fontes oficiais para não cair em notícias falsas.

Mesmo com o número de casos de COVID-19 no Brasil ultrapassando os quatro milhões e o número de óbitos acima dos 128,5 mil (dados do Ministério da Saúde em 9 de setembro), notícias falsas sugerem que os dados são exagerados e há quem não tenha se dado conta da gravidade da doença.

Ainda no início da pandemia, fake news sugeriram que muitos atestados de óbito apontavam erradamente a causa de morte como COVID-19, como forma de inflar o número de casos e, consequentemente, os recursos destinados à saúde em cada estado. “O preenchimento da declaração de óbito é um ato médico. O médico é que tem autonomia para preencher todos os dados da pessoa que morreu e fazer uma hipótese da causa daquela morte”, esclarece o sanitarista Christovam Barcellos, vice-diretor do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz). “Dizer que um médico, nessa situação difícil, está cumprindo ordens de um governador, ou ganhando dinheiro para falsificar um atestado de óbito, isso é absurdo”.

Existem, atualmente, três formas de chegar ao diagnóstico de COVID-19, que faz com que um caso passe a fazer parte das estatísticas da doença no compilado das Secretarias Estaduais de Saúde e do próprio Ministério da Saúde. “[No começo da pandemia], a única maneira de se comprovar um caso ou óbito por COVID-19 era por diagnóstico laboratorial, seja por exame molecular (que busca fragmentos do vírus), seja por presença de anticorpos”, narra Barcellos. “Recentemente, o Ministério da Saúde começou a aceitar outras formas de diagnóstico, por exemplo, exames de imagem de pulmão ou diagnóstico clínico-epidemiológico”. Nos exames de imagem, a COVID-19 aparece na forma de lesões nos pulmões, geradas pela inflamação característica da doença. Já o diagnóstico clínico-epidemiológico se dá quando um paciente apresenta diversos sintomas da COVID-19 e, sabidamente, teve contato com alguém que manifestava a doença.

Dados oficiais

O “veículo oficial de comunicação sobre a situação epidemiológica da COVID-19 no Brasil” – como ele próprio se define – é um portal criado pelo Ministério da Saúde, que reúne dados obtidos de todas as Secretarias Estaduais de Saúde, atualizados diariamente no fim da tarde. Eventuais discrepâncias entre os dados encontrados nessa página e aqueles divulgados pelas Secretarias podem ser explicados pela forma como os números são contabilizados: “O Ministério da Saúde divulga os dados segundo a data em que estão chegando a ele, e as Secretarias de Saúde conseguem disponibilizar dados segundo as datas dos sintomas [identificados nos pacientes]. Isso modifica um pouco o formato da curva, embora não altere a quantidade de casos e de mortes segundo as diversas plataformas”, assegura Barcellos.

O Icict/Fiocruz também lançou, em abril, uma plataforma de monitoramento de dados oficiais, o  MonitoraCovid-19. Além dos dados nacionais, a página permite o acompanhamento dos números dos estados e municípios e dados internacionais. O diferencial é permitir a rápida comparação entre eles. Mais recentemente, o banco de dados começou também a incluir outros indicadores além dos números de casos e óbitos por COVID-19, como dados relacionados a mobilidade e trânsito, além de relatos de sintomas por usuários de redes sociais.

Tanto a plataforma do Ministério da Saúde quanto a MonitoraCovid-19 são abertas para consulta por qualquer pessoa interessada e mostram a intensidade com que o país foi atingido pela pandemia.

Afinal, morreu de quê?

Nos últimos dias, outras fake news vêm sugerindo que a maior parte dos óbitos atribuídos à COVID-19 teria sido causada por outros problemas de saúde. A origem dessa notícia foi a informação, disponível na página dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), de que, entre os óbitos relatados nos Estados Unidos, apenas 6% incluíram a COVID-19 como única causa de morte. Em postagens que rodaram o mundo, usuários de redes sociais concluíram que, nos outros casos, a real causa do óbito não teria sido a infecção pelo novo coronavírus, mas outras doenças pré-existentes.

Embora amplamente difundido, esse raciocínio não está correto e foi desmentido por diversos serviços de verificação de notícias, como o da BBC. Em reportagem do dia 4 de setembro, o veículo esclareceu que, em 92% dos casos, a COVID-19 está claramente indicada como causa principal de morte. Porém, nesses casos, o atestado de óbito inclui ainda outras condições (inclusive aquelas decorrentes da COVID-19, como problemas respiratórios) que contribuíram para o desfecho.

Estudos já mostraram que a infecção pelo SARS-Cov-2 tem o potencial de causar impacto sobre diferentes órgãos e sistemas do organismo humano, gerando condições que podem levar à morte. Formação de coágulos sanguíneos,  ataques cardíacos, embolia pulmonar, isquemia nos dedos das mãos e dos pés, insuficiência renal, convulsões, derrames e inflamação cerebral são algumas condições que já foram associadas à COVID-19 – uma doença nova e, portanto, ainda pouco compreendida.

Vale destacar, por fim, que idosos e pessoas com comorbidades como diabetes, problemas cardíacos e doenças pulmonares têm mais risco de desenvolver formas graves da COVID-19 e morrer em decorrência dela. Por isso, em muitos casos, a doença causada pelo novo coronavírus será a causa primária do óbito, ainda que o estado geral de saúde do paciente também tenha contribuído para tal.

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