Vacina contra gripe não aumenta susceptibilidade ao novo coronavírus

Ao contrário: em tempos de pandemia, as campanhas anuais de imunização são ainda mais importantes, pois reduzem os casos de síndrome respiratória grave causadas pelo vírus da gripe.

Todos os anos, o Brasil realiza campanha de vacinação contra gripe, iniciando com foco em idosos, crianças em idade escolar, profissionais da saúde e do ensino e, em seguida, estendendo o excedente de vacinas à toda a população. Em 2020, a campanha teve uma dificuldade extra: em meio à pandemia de COVID-19, algumas mensagens enganosas divulgadas via redes sociais argumentavam que tomar a vacina de gripe poderia deixar o organismo mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Porém, os dois especialistas entrevistados pela nossa equipe afirmam que não existe nenhuma evidência de que isso aconteça.

A vacina contra gripe usada no Brasil é feita com vírus inativado, incapaz de causar infecção. Portanto, não pode fazer com que quem a recebe fique doente. As reações adversas mais comuns do imunizante são locais: vermelhidão, dor e inchaço no local de aplicação de vacina. A febre – que não deve ser confundida com gripe! – é um efeito muito raro.

“A coincidência é a maior inimiga da vacina”, argumenta a pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. “A pessoa toma a vacina quando está saudável. Depois, se alguma coisa acontece pouco tempo depois, acaba atribuindo à vacina”. A especialista lembra que os sintomas causados pela gripe são semelhantes àqueles causados por outros vírus respiratórios, o que pode gerar confusão.

O virologista Flávio Guimarães da Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais, concorda. A circulação desses vírus se concentra nos meses mais secos e frios do ano, que coincidem com os períodos em que são realizadas campanhas de vacinação contra gripe. “A pessoa se vacina contra a gripe e, dois dias depois, contrai um resfriado”, exemplifica. Há uma tendência a ligar os dois eventos. “Mas essa correlação causal não é verdadeira”, garante o pesquisador.

Como o vírus da gripe sofre mutações com muita facilidade, a vacina é atualizada anualmente, de acordo com as cepas virais que vêm circulando no mundo. “Eventualmente, há o surgimento de uma nova variante de gripe, que ainda não foi incluída na vacina”, ressalva Fonseca. “Assim, a pessoa vacinada pode adoecer ao ser infectada com essa nova variante, mas isso é mais raro. O mais comum é confundir outras infecções respiratórias com gripe.”

Vacinas em tempos de coronavírus

É infundado o medo de que o imunizante contra gripe aumente o risco de contrair o SARS-CoV-2, causador da COVID-19. Ao contrário, a comunidade científica acredita que, em tempos de pandemia, a vacinação torna-se ainda mais relevante.

“A gripe é uma doença potencialmente grave, que mata, em média, mil brasileiros por ano, em especial idosos e pessoas com doenças crônicas, além de crianças. Além disso, a gripe é capaz de causar pandemias, como a que vivemos em 2009”, destaca Ballalai, referindo-se à emergência mundial causada pelo vírus H1N1, causador da gripe A.

Durante a pandemia de COVID-19, a vacinação ajuda a reduzir os casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) pelo vírus da gripe. “A SRAG é causa de internação e morte, e os pacientes com essa síndrome causada pela gripe competem por leitos com os pacientes com COVID-19”, diz.

Fonseca acrescenta, também, que a vacinação em massa contra gripe agiliza o diagnóstico de pacientes graves durante a pandemia: “Quando um paciente chega ao hospital com sintomas respiratórios graves, se há a informação de que aquele indivíduo está vacinado, o médico pode afastar a hipótese de ser gripe, e começar a investigar a hipótese de ser COVID-19. Quanto mais gente for vacinada contra gripe, mais poderemos descartar essa possibilidade na hora do diagnóstico”.

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