Vacina de RNA não altera genoma humano

Imunizante contra a COVID-19 utiliza nova tecnologia e ainda está em testes, mas já tem gente espalhando notícias falsas que questionam sua segurança.

Vários grupos de cientistas e empresas estão trabalhando em busca de uma vacina eficaz contra o SARS-Cov-2, o novo coronavírus, causador da COVID-19. Nessa corrida, especialistas vêm tentando aplicar, além de técnicas tradicionais de criação de vacinas – por exemplo, aquelas com vírus inativado ou atenuado –, uma nova tecnologia, a vacina de RNA mensageiro. Esta última já levantou suspeitas e foi alvo de fake news: personalidades e grupos antivacinação nas redes sociais questionam a segurança da vacina de RNA dizendo que a técnica levaria à alteração do genoma humano, transformando os vacinados em um exército de organismos geneticamente modificados.

Como funciona uma vacina de RNA

O ácido ribonucleico (RNA), assim como o ácido desoxirribonucleico (DNA), é uma molécula formada no núcleo das células. O DNA armazena a informação genética, enquanto o RNA mensageiro (ou mRNA) leva essa informação para o citoplasma, onde acontece a síntese de proteínas. Trocando em miúdos, o mRNA é a forma como a célula lê a “receita” contida no DNA e fabrica as proteínas de que o organismo necessita. “Podemos dizer que o RNA é uma molécula usada pelas células para ‘converter’ a sequência genética do DNA em uma proteína”, explica a bioquímica Elena Cristina Caride, gerente do Programa de Vacinas Virais do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A ideia por trás de uma vacina de RNA é utilizar a maquinaria das células humanas para sintetizar uma proteína do vírus ou outro patógeno contra o qual se deseja induzir imunidade. “Essa proteína vai ser secretada pelas células e, então, estará exposta ao sistema imunológico, que vai detectar essa proteína e criar uma resposta imune contra ela”, conta o imunologista Carlos Zárate-Bladés, do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina. “Os elementos gerados por essa resposta imune vão servir para proteger a pessoa quando de fato o patógeno entrar em seu corpo”.

No caso da vacina contra o SARS-Cov-2, o que os cientistas fizeram foi sintetizar uma sequência de RNA que codifica uma proteína da parte externa do vírus. Quando uma pessoa recebe esse RNA sintético, suas células começam a produzir a proteína em questão, que é reconhecida pelo sistema imunológico como uma molécula invasora. A resposta imune criada para combater essa molécula é como o treino que prepara o sistema imunológico para uma real infecção pelo coronavírus.

Genoma humano e vacinas com material genético

Antes dos estudos de vacinas com RNA, investigações que buscavam a criação de vacinas contendo DNA já haviam levantado a hipótese de que o material genético contido no imunizante pudesse se integrar ao genoma humano. A preocupação, no entanto, não foi confirmada.  “Isso nunca foi visto nos estudos clínicos em andamento no mundo, com vacinas para diversos patógenos”, esclarece Caride.

“Já com uma vacina de RNA é menos provável ainda que haja essa alteração”, completa o imunologista Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia e pesquisador da Fiocruz-MG. O virologista Paulo Roehe, do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, concorda: “A vacina não tem como modificar nosso genoma. Para começar, porque nosso genoma é formado por DNA, e não RNA. E não existe nada no organismo humano que possa pegar esse RNA mensageiro da vacina e transformá-lo em DNA”.

Vantagens e desvantagens da vacinas de RNA

Entre as várias tecnologias em estudo para a criação de novas vacinas, a de RNA se destaca pela promessa de facilitar a produção rápida e em larga escala. “Como ela é sintética, pode ser produzida muito rapidamente”, aposta Gazzinelli. O especialista menciona também que, até agora, a vacina de RNA apresentou poucos efeitos colaterais.

Outra vantagem, acrescenta Zárate-Bladés, é que algumas vacinas de RNA podem ser autorreplicativas. Assim, podem, teoricamente, se perpetuar por mais tempo dentro do organismo. “Frente às vacinas inativadas ou de microrganismos mortos, é uma vantagem, porque essas vacinas de RNA tenderiam a dar uma resposta imunológica mais duradoura”, diz. No entanto, só os testes clínicos podem confirmar se a imunidade conferida pela vacina de RNA é mesmo prolongada.

Na avaliação de Roehe e Caride, as vacinas tradicionais, que utilizam vírus inteiros, tendem a ser mais imunogênicas, o que seria uma desvantagem da tecnologia da vacina de RNA. “Vacinas de vírus inativado têm a partícula viral completa, o que confere uma resposta imune mais robusta. Já vacinas atenuadas historicamente apresentam uma resposta imune ainda melhor, pois o vírus vacinal replica na pessoa imunizada, mimetizando o que acontece durante uma infecção natural”, explica Caride.

Outra preocupação levantada pelos especialistas é a instabilidade da molécula de RNA, o que pode ser um desafio tanto para a eficácia do imunizante quanto para o armazenamento e o transporte da vacina sem a sua deterioração.

Mesmo com resultados promissores, vacina ainda pode demorar

Vacina de RNA contra COVID-19 ainda precisa passar por mais testes antes de ser produzida e aplicada em larga escala.

Produzir uma vacina a partir de RNA sintético é uma tecnologia nova, que já vinha sendo testada há alguns anos contra outros agentes infecciosos, como os vírus da zika, da chikungunya e da gripe, e até contra alguns tipos de câncer. Há estudos com este tipo de vacina, inclusive, contra outros tipos de coronavírus, o que, em muitos aspectos, facilitou o desenvolvimento de uma vacina contra o SARS-Cov-2. “Em poucos dias, já se tinha toda a sequência dos genes do vírus, e isso permitiu que se sintetizasse um RNA mensageiro para codificar uma de suas proteínas”, conta Roehe.

Porém, ainda não há vacinas registradas para uso comercial usando essa tecnologia. “Ainda não houve tempo hábil para a obtenção dos resultados dos estudos clínicos e registro desse produto”, pontua Caride.

A pandemia de COVID-19, com seus impactos para a saúde pública, a economia e a vida social no mundo inteiro, gerou uma enorme pressão para acelerar as pesquisas em vacinas, incluindo as de RNA. No entanto, segundo os especialistas, há um limite do quanto se pode acelerar esse processo: antes de aplicar uma vacina nova em larga escala, é preciso ter certeza de que ela é segura e que funciona, o que só acontece depois de uma série de testes. Embora a ansiedade por uma vacina seja enorme, é controverso dizer que ela chegará rápido. “Em média, o desenvolvimento e aprovação de uma nova vacina podem levar até dez anos. As mais rápidas foram feitas em quatro ou cinco”, lembra Gazzinelli.

“A gente só vai saber efetivamente em que essas vacinas que estão sendo desenvolvidas agora vão resultar quando tivermos milhares de pessoas vacinadas. Isso leva tempo”, completa Roehe. Outro fator importante a se levar em consideração é a capacidade que os países têm de produzir a nova vacina em larga escala e aplicá-la à população. “O Brasil até tem uma posição privilegiada, porque temos uma logística boa para aplicar vacina em massa e experiências positivas com campanhas de vacinação”, ressalta o especialista. Ainda assim, ele faz a ressalva de que é preciso assegurar que haja vacina em quantidade suficiente para esse tipo de campanha.

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