Quem tomou a vacina BCG na infância está protegido contra a COVID-19?

Estudo publicado em importante revista científica reacendeu esperança nessa associação; especialistas (incluindo os autores do trabalho) afirmam que é cedo para afirmar ação protetora.

Recentemente, alguns meios de comunicação anunciaram que um estudo havia confirmado a existência de uma ação protetora da vacina BCG contra a COVID-19. Essa informação é falsa.

Com as medidas de isolamento social se estendendo por mais de quatro meses, é seguro dizer que estamos cansados e, possivelmente, precisando acreditar numa notícia boa em relação à pandemia de COVID-19. Talvez por isso muita gente queira ver resultados animadores de pesquisa como soluções rápidas para o problema causado pelo novo coronavírus, o SARS-Cov-2. Assim, um artigo publicado na revista PNAS sobre a relação entre a cobertura vacinal por BCG na infância e número de casos e mortes por covid-19 acabou gerando anúncios de que a vacina, que previne formas graves de tuberculose, conferia proteção também contra o novo coronavírus. Não é tão simples.

Desde o início da pandemia, cientistas vêm observando a curva de casos em diferentes regiões do globo para tentar entender por que a COVID-19 gera mais casos, ou casos mais graves, em alguns países. “Observou-se que alguns países que têm certas vacinas inseridas obrigatoriamente no seu calendário de imunização na infância, como a BCG e a vacina contra o sarampo, aparentemente apresentavam menor número de casos de COVID-19, e com uma letalidade menor também”, conta a infectologista Raquel Stucchi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Daí, uma das coisas que se pensou é, será que essa proteção dada pelas vacinas obrigatoriamente feitas na infância nesses países poderia ter alguma relação com esse número reduzido de casos de COVID-19?”

Apesar de serem desenvolvidas para proteger as pessoas de doenças específicas, algumas vacinas podem ajudar o sistema imunológico a combater outras infecções. Isso acontece porque o sistema imunológico humano tem duas formas de agir. Uma delas é gerar anticorpos específicos contra patógenos – por exemplo, vírus – com que já teve contato. Essa resposta imunológica, chamada adaptativa, explica por que pessoas que tiveram certas doenças ou foram vacinadas ficam protegidas contra esses patógenos mesmo muito tempo depois da imunização.

Outro braço do sistema imunológico cria as chamadas respostas inatas, que são genéricas, reagindo inespecificamente a qualquer patógeno. “O bacilo de Calmette-Guérin, componente da vacina BCG, tem a particularidade de ser muito inflamatório”, explica o virologista Flávio Guimarães da Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Quando a pessoa é vacinada, ativa o sistema adaptativo, mas também estimula grandemente esse sistema inato. Por isso, uma resposta à vacina BCG poderia acabar afetando a resposta à infecção pelo coronavírus”. Fonseca explica, ainda, que essa proteção cruzada poderia explicar menor susceptibilidade das populações vacinadas com BCG a outras doenças.

No entanto, o virologista ressalta que a proteção da BCG contra o SARS-Cov-2 ainda não foi comprovada – os estudos ainda estão em andamento – e tem dúvidas sobre se os efeitos da BCG, uma vacina aplicada na infância, sobre a resposta imunológica inata perdurariam até a vida adulta. Ele vê, também, uma outra hipótese para explicar a relação observada entre cobertura vacinal por BCG e menos casos de COVID-19. “Países que têm ampla cobertura de BCG são países que também têm sistemas de saúde bem estruturados, o que certamente impacta nos resultados de uma infecção”, argumenta. “Para uma doença como a COVID-19, que depende de cuidados intensivos em suas formas graves, isso pode ter impacto nas taxas de mortalidade. [Os resultados que estamos vendo podem] representar um quadro mais amplo de adequação do sistema público e privado de saúde à realidade daquele país”.

BCG no Brasil

A vacina BCG foi desenvolvida na França no início do século 20, por dois cientistas do Instituto Pasteur. No Brasil, passou a fazer parte do Programa Nacional de Imunizações, como vacina obrigatória, em 1976. A recomendação é que seja aplicada na infância, antes dos quatro anos.

Perguntada sobre a possibilidade de a BCG proteger contra o SARS-Cov-2, Stucchi concorda também com o fato de que são necessários mais estudos antes de pensar políticas de saúde pública relacionadas a essa questão. “É muito cedo ainda para a gente falar se essas vacinas podem realmente conferir proteção ou não contra o coronavírus, esses estudos estão em andamento. Não há indicação de reforçar a vacinação ou de repetir a vacinação contra essas doenças pensando em prevenir a infecção pelo novo coronavírus. Ainda é especulação”.

Ela ressalta, por outro lado, a importância da vacinação com a BCG e também contra sarampo e outras doenças. “Essas vacinas fazem parte do nosso calendário de imunização e é importante que as pessoas sigam o calendário e se vacinem para se proteger contra essas doenças, independentemente do novo coronavírus”.

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